De repente repentino

Foi assim da noite pro dia
De repente repentino
Que seu dotô Orestes Faria
Desandou dos intestino

Nessa vida se vê de tudo
Acredite, sim sinhô
Onde já se viu o absurdo
De dotô percurá dotô?

Num teve médico que curasse
A doença arretada
Um deles receitou que procurasse
Os serviço da Nhá Bençoada

Benzedeira de primeira
Como nessas terra nunca se viu
Já curou até tonteira
De político do Brasil

Nhá Bençoada tentou assuntá
Da dor qual a razão
Dotô Orestes desandou fala,
Ora, disso eu não sei não

É que de uns tempo pra cá
Apareceu uma agonia
Uma aflição de se admirá
Que já dura uns par de dia

Porque essa vida é muito dura
Dela ninguém sabe o que vai ser
Cada dia aparece uma gastura
Mais pior de ruim pra resorvê

Nhá Bençoada respirô fundo
Pegou três galho de arruda
Pensou por alguns segundo
E disse, Eu tenha uma ajuda

Já sei o que seu dotô tem
Conheço até coroné com esse mal
O remédio, anote bem,
É ir falar com seu Juvenal

O endereço não tem segredo
Só se perde quem não se atenta
É um casebre branco, no arvoredo
Rua dos Cajás, número quarenta

Dotô Orestes pegou o chapéu
Montou no lombo do jumento
Suou com o sol no meio do céu
Mas, chegou ao destino sem lamento

Na casa certa, bateu três palma
Da casa branca saiu Juvenal
Velho franzino, de boa alma
Tranquilo como não tem ingual

Dotô Orestes se pôs a falar,
Meu bom sinhô, me dá licença
Longe de mim te atrapalhá
Só que eu tô com uma emergênça

Já faz pra mais de dia que durmo nada
Que só penso no que há de vir
Não sei por que de madrugada
Me borro todo, não é pra rir

Se tô aqui foi pela benzedeira
Que me deu o endereço do sinhô
Agora explica, sem mais leseira,
O que um velhote pode ensiná prum dotô

Seu Juvenal cuspiu o fumo
Deu de ombro com sorriso largo,
Sou um home simpres, isso eu assumo
Mas, isso não me é nada amargo

O que dotô tem é a tal ansiedade
Isso é doença de gente que pensa demais
O que posso te dizer, na minha idade,
É pra deixar isso pra trás

De tudo que sei e posso dizer
Sem dúvida nenhuma e sem talvez
É que nada dá mais saúde que deixá pra viver
Um dia de cada vez

Dotô Orestes ouviu o conselho
Nas palavra refretiu bastante
E antes de partir se pôs de joelho
E agradeceu, em voz berrante

Seu Juvenal, é isso mesmo
Que me assola o coração
Se vida me leva a esmo
Não vou ir na contramão

Seu Juvenal então falô,
Ora, quanta inteligênça
Vai em paz, meu bom dotô,
Vive melhor quem tem paciênça

Celso Garcia