A história somos nós

Atenção! Essa não é a história de pessoas diferentes, em universos distintos, com atitudes particulares. Essa é a sua história. É a minha história. Afinal, em que somos diferentes? Humanos ocidentais apegados ao capitalismo, consumo e vícios e virtudes e costumes... Aqui não vamos conversar sobre personagens fictícios, ilusórios, ainda que essas personagens se pareçam um tantinho conosco. Vamos falar de nós! Vamos falar da nossa história.
Quero dizer de como é olhar para trás, para o passado, sem tirar os olhos dos seus olhos. Vamos lá. Me encare! E não... Isso não é um acerto de contas com a vida. Aqui estamos para o que chamam hoje de “papo reto”. Vamos contar aqui o que já fizemos pela sociedade em que vivemos. Já parou pra pensar? Aposto que não. Afinal, em nosso mundo, vivemos quase que mecanicamente.
Somos robôs com coração, e raras vezes nos lembramos que ele existe. Geralmente é quando ele dói, não é mesmo! Somos máquinas que possuem um sofisticado sistema de controle chamado cérebro. E o sabotamos para depois sermos sabotados por ele. Somos mecanismos intrincados de autodestruição. Vivemos para acabar com nós mesmos. Tá me achando pessimista em excesso? Realidade é algo que pode ser muito cruel. Aliás, pode não... É!
Acorde... Tome um bom café da manhã... Trabalhe... Seja sociável... Seja competente... Sorria para os colegas... Não fale tudo que pensa... Almoce bem... Seja laborioso... Volte para casa... Não leve o trabalho para casa... Sorria para a família (não esqueça)... Coma algo leve antes de dormir... Divirta-se alguns minutos em frente a TV (importante)... Tenha sonhos bons e revigorantes... Durma naquela posição que deixa seu corpo mais reto... 
Faça tudo isso mesmo sem vontade. Você vive em uma sociedade, e seus sentimentos só importam para você. Ninguém tem nada com os dias em que tudo que você mais deseja é não existir. Não fique falando dos seus problemas, mas ouça pacientemente quando alguém tiver algum para dividir com você. E não banque o sábio. Se conselho fosse bom era vendido, não dado! Não seja chato. Nem queira ser notado. A educação mostra que os elogios são bons para nossa alma, mas devemos rechaçá-los com um “não é pra tanto”, ou “eu nem mereço isso”.
E assim a gente constrói nossa história de aparências. Nós traçamos nossos destinos num jogo de causa e consequência onde geralmente não geramos a causa por nossa vontade interior, mas nós somos obrigados a sofrer as consequências praticamente sozinhos e sem direitos à reclamação. Sem “chororô”. Lamentar nos coloca à margem do que a sociedade espera de nós. E, com isso, vamos criando uma legião de lamentos contidos – Alguns a muito custo – que um dia precisarão encontrar vazão. 
Na história de aparências de todos nós, uma revolução geralmente chega para acabar com tudo que represamos em nossos íntimos, mesmo que os milhares de acessíveis livros de autoajuda nos digam que não podemos guardar rancor dos fatos e das pessoas, e dos fatos que as pessoas nos causam. Revoluções nos limpam por dentro. Quando saímos e protestamos contra governos ou situações, estamos colocando pra fora o que nos angustiava, mas ainda mascarando nossas angústias nos xingamentos que proferimos àquelas pessoas que talvez nem conheçam nossa existência neste mundo. 
É chegada a hora de uma revolução interior. O que você não gosta na sua história? Diz aí! Mas olhando nos olhos. Nos seus próprios olhos. Encare-se! E jogue fora tudo de inútil que há dentro de você. Mais uma regrinha de convivência em sociedade? Sim. A regra que escondem quando nos passam todas as outras. Essa regra que nos permite deixar de ser robôs e passar a ser nós mesmos. Uma regra que retoma o que temos de mais humano em nós. A capacidade de construir nossa própria história consumindo o que realmente é essencial em nossa vida, acumulando sentimentos, os benéficos de preferência (mas alguns diversos disso são bons também. Apimentam a existência e nos instigam).
O que? Esses sentimentos podem destruir a sociedade? Então... Que se acabe a sociedade. Sejamos menos societários e mais humanos. Vamos dividir o pão não porque nos mandam, pra ficar bonito na foto, mas porque não há porque deixá-lo mofar quando estamos saciados enquanto nosso próximo dele precisa, só pra dizermos “vejam, acumulei pão pra cinco vidas minhas”. 
Você-só-tem-uma-vida! Que tal vivê-la, ao invés de por ela passar?
Da vida só levamos aquilo que fica dentro de nós. 
Só levamos a história. 
A nossa história. 
A história que nós fazemos. 
A história que somos nós!

Leonardo Távora