Ode ao bar (ou pobre Adamastor)

Batucada na esquina, pagode de mesa,
Dedilhado na caixa de fósforo, voz em desafino,
Se pra vizinhança é gritaria,
Pra quem tá na roda, é boa companhia,
- Chegaí, camarada!

E chega, ô se chega,
Chega um, chega geral,
Papo que vai, papo que vem,
- A próxima rodada eu pago!
- Garçom, desce mais uma !

Desce mais uma loira,
Também uma mulata, a morena desce a ladeira,
Faz que não fica, só pra fazer charme,
E recomeça a cantoria,
Roda de samba, samba de roda

E tudo roda, noite adentro,
A voz já rouca, a boca já mole,
A hora que passa e ninguém vê
- Você é meu amigo, cara!
No bar todo mundo se quer bem

E o garçom, que em casa tem ninguém,
Ali é amigo de todos,
- Traz mais uma, amigão!
Lá vem ele todo gentil
E levantam o copo, um brinde

Viva o bar, a nação dos mal amados,
Távola redonda dos amigos,
Pátria dos torcedores,
Onde, à noite, todo trabalhador é chefe,
Até o sol raiar

Só dá pena do seu Adamastor, que mora ali de frente, enfiando a cabeça debaixo do travesseiro pra tentar dormir. Amanhã tem que trabalhar.
- A saideira, amigão!

Celso Garcia