A Minha Sopa de Letrinhas

Sempre odiei comida de hospital. Talvez pelo fato de que passei boa parte da minha vida nesse lugar. Ou talvez porque a comida seja ruim mesmo.
Era terça-feira, fim de tarde. Eu poderia escolher entre arroz, feijão, carne refogada ou um prato de sopa. Sempre gostei de sopa, porém, algo vindo de um hospital, eu não poderia esperar muito.
Estava enjoada devido à enorme quantidade de remédios, então, optei pela sopa.
Não demorou muito até que uma das copeiras chegasse ao quarto com uma pequena tigela soltando pequenas fumacinhas.
Encarei firme tudo que estava ali dentro: Pequenos pedacinhos de batata, cenoura, mandioca, macarrão. Parecia estar bom, então, peguei a primeira colherada e quando fui levá-la em direção a minha boca, notei uma coisa que ainda não tinha visto.
Havia macarrão de letrinhas naquela sopa. Sim, letrinhas. Por um segundo, me senti uma criança, e no segundo depois, meu coração apertou ao ver a letra que estava acima de tudo. A letra ‘A’.
Fiquei alguns instantes encarando aquela colherzinha.
As coisas estavam difíceis, a saudade apertava. E aquela letra A agora me abraçaria.

Aquela letra faria as coisas passarem, faria eu me sentir bem.
Seguraria minha mão, me mostraria uma luz no final do túnel.

Fiquei olhando aquela letra, a letra A que seguidamente me fez lembrar das letras T, R, B, J, K, C, S, F, P, E, M, D e assim por diante.
Maldita sopa! Deveria ter optado pela comida intragável de sempre.
Quem dera tudo fosse como ‘sopa de letrinhas’, você engolia e tudo se acabava. Ponto, era isso. Porém a vida ia bem mais além que sopas, a vida ia até as letras que estavam ali, e que me apertavam o coração, que me traziam saudades, que me davam vontade de querer mudar o destino.
Agora, é melhor tudo não passar apenas de macarrão, de simples letrinhas.

Letrinhas não me abraçam, não me beijam, não me fazem sorrir.
Meu amigos, esses donos de cada letra, fazem isso por mim.

Andresa Alvez