Livro em Cena: "A cidade e as serras"

O livro escolhido para esse mês é uma homenagem ao talento denso do português Eça de Queiróz. Um dos grandes escritores em língua portuguesa, certamente. A Cidade e as Serras foi publicado em 1901, um ano após a morte do autor. A obra não estava inteiramente acabada. Faltava a meticulosa revisão que Eça dedicava a seus romances antes de publicá-los. Ainda assim, é considerado um dos mais importantes livros do escritor, concentrando as principais características do período de sua maturidade artística. Vale a pena ter na coleção. 
Boa leitura! 


CENA: BASILICA / EXTERNA – INTERNA / DIA 

Em Travelling, a câmera passa pelas ruas, no ritmo de uma charrete, em bairros estreitos e íngremes, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canas. Num chicote, vemos os dois na charrete. Zé Fernandes observa o ambiente, com um meio-sorriso. A câmera volta a mostrar o ambiente, agora com barracas de arraial, forradas de paninho vermelho, com Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retrós, claros molhos de Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungam a Ave-Maria. Dois padres descem uma escadaria, conversando alegremente. Ouve-se o sino tocar. 

Jacinto: É curioso! 

Vemos a fachada da basílica. A câmera vai se abrindo, e vemos os dois na porta, parados, olhando para a fachada. E Jacinto desiste de entrar e caminha para a borda do terraço, a contemplar Paris. 

Zé Fernandes: Aí está, pois, a Cidade. Augusta criação da Humanidade. 

Jacinto não diz nada. Apenas olha para a cidade ao horizonte. 

Jacinto: Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão! 
Zé Fernandes: Certamente, meu Príncipe, uma Ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa Ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa! 
Jacinto: Há mãos regeladas que se estendem e beiços sumidos que agradecem o dom magnânimo dum sou, para que os Efrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam à chama rica da lenha aromática, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas dos duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos – para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados dum fio de éter! 
Zé Fernandes: E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu! 
Jacinto: É horrível, comemos desses morangos... E talvez pôr uma ilusão! 

Pensativamente, Jacinto deixa a borda do terraço, E caminha devagar. Zé Fernandes o acompanha. 

Zé Fernandes: Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das Plebes, se uma influência celeste, pôr milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! 
Jacinto: O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado – e contra ele são impotentes os prantos dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina. 
Zé Fernandes: Eis pois esperança da terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Céus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta dum curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo sermão numa montanha, ao fim duma tarde meiga; uma repreensão moderada aos Fariseus que então redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Efrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraíso! 
Jacinto: Esse adorável filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influências dos Efrains, dos Trèves, da gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberíade – e eis que pôr seu turno revestem a púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam à opressão, e reinam com ela, e edificam a duração do seu Reino sobre a miséria dos sem-pão e dos sem lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da Redenção. 

Jacinto acende um charuto. 

Jacinto: Aceita um? 
Zé Fernandes: Não, obrigado. Estou tentando me manter afastado dos vícios. 
Jacinto: Falso puritanismo, Zé Fernandes. A maior certeza da vida é que não sairemos vivos dela. 
Zé Fernandes: É verdade! (pausa) Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia! 

Os dois descem a escadaria, armada em arraial devoto. Jacinto compra uma imagem da Basílica. No final da escadaria. Eles vão entrando na charrete, quando alguém grita rijamente, numa surpresa: 

Maurício (V.O.): É Jacinto! 

Jacinto olha para trás, e abre os braços. 

Jacinto: É Maurício! 

E, num alvoroço, Jacinto atravessa a rua, para um café, onde, sob o toldo de riscadinho, Maurício, de barba em bico, remexia o seu absinto, com o chapéu de palha descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu jardim. 

Maurício: Ó! eu estou aqui no meu bairro! Em famícia, em chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de Israel! 

Jacinto aponta para Zé Fernandes. 

Jacinto: Estou na companhia deste amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada. 

Maurício cumprimenta Zé Fernandes, e pede que sentem-se. 

Jacinto: Toma um bock, Zé Fernandes! Tu estavas a ganir com sede! 
Zé Fernandes (sarcástico): Estou a guardar esta sedezinha para logo, para jantar, com um vinhozinho gelado! 
Maurício: Há três anos que não te vejo, Jacinto... Como tem sido possível, neste Paris que é uma aldeola e que tu atravancas? 
Jacinto: A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! Há três anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário? 

Maurício atira um gesto desdenhoso e largo. 

Maurício: Ó! Há mais dum ano que me separei dessa bicharia herética... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo estonteado, carência completa e cômica de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à Cerveja ideal, o que reinava?... 
Jacinto: Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Eddica, e o Raganarock, e as Normas... Muito Pré-Rafaelismo também, e Montagna, e Fra-Angélico... Em moral, o Renanismo. 
Maurício: Tu ainda és do tempo do culto do Eu? 
Jacinto: Ainda o cultivei. 
Maurício: Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoísmo, um furor imenso de renunciamento neocenobítico. Ainda me lembro dum jantar em que apareceu um mostrengo dum eslavo, de guedelha sórdida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que grunhia com o dedo espetado: - “Busquemos a luz, muito pôr baixo, no pó da terra!” – e à sobremesa bebemos à delícia da humildade e do trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes dias em copos da forma do Sã-Graal! Depois veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi o Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada místico-brejeira, pregada pôr aquele pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ânsia para o Ruskinismo! 
Jacinto: O Ruskinismo? 
Maurício: Sim, o velho Ruskin... John Ruskin! O meu ditoso Príncipe compreendeu: 
Jacinto: Ah, Ruskin!... As sete lâmpadas da Arquitetura, A Coroa de Oliveira Brava... É o culto da Beleza! 
Maurício: Sim! O culto da Beleza. Mas a esse tempo eu, enjoado, já descera de todas nuvens vãs... Pisava um chão mais seguro, mais fértil. 
Jacinto: E então? então?... 
Maurício: Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de gênio, que percorreu toda a Índia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de Grama-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gengen-Chutu no retiro santo de Urga... Gengen-Chuty foi a décima Sexta encarnação de Guatama, e era portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. Mas fatos, experiências bem antigas, que vêm talvez desde os tempos de Cristna... 
Jacinto: Pôr fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. É toda a ciência e força dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstáculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Tibete... 
Maurício: Ainda assim, meu Jacinto, já obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as experiências de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre químico, para demonstrar as vibrações do som, tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas quê! homem de ciência, portanto homem de estupidez, ficou aquém, entre as suas placas e suas retortas! Nós fomos além. Verificamos as ondulações da Vontade! Diante de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadência com o seu mandado, uma chama, a três metros, ondulou, rastejou, despediu línguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu! 

Jacinto fica em silêncio por um momento.

Jacinto (levantando-se): Bom, preciso ir. Já está ficando tarde. 
Maurício: Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202 para almoçar contigo, e levo o meu amigo. Ele só come arroz, um pouco de salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do Sepber-Zerijab e outro do Targun d’Onkelus. Preciso folhear esses livros. 
Zé Fernandes: Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! E creio que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da Cidade! 
Maurício: Mande gelar duas garrafas de champanhe St. Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescada... Água de Evian... Não, de Bussang! Bem, de Evian e de Bussang! E, para começar, um bock. 

Jacinto e Zé Fernandes entram na charrete, e esta sai.