Livro em Cena: "Fala sério, mãe!"

Fico sempre muito contente de chegar a mais uma edição do Livro em Cena. Aqui, além de divulgar um bom livro, que vai desde o grande clássico Dom Casmurro ao moderno weblivro Lado B 1ª Temporada e 2ª temporada, eu vou treinando a arte de escrever um roteiro, o que me dá um imenso prazer. Não é nada fácil escrever. Algumas pessoas dizem que é mais coisa de hábito que de criatividade. Concordo. Mas sem imaginação, as palavras se embaralham e não conseguem passar belas mensagens travestidas de poesias, que soam agradáveis aos olhos de quem lê. 
Para inaugurar 2011 aqui no Literatura Exposta, escolhi a talentosíssima Thalita Rebouças, que é jornalista, e escreve livros voltados para o público adolescente, na linguagem usada por eles. Isso é um dom de poucos. E Thalita tem de sobra. Um pouco parecido com a linha do Enrique Coimbra, que já teve duas obras participantes desta seção. Esta obra que estou apresentando é interessante demais. Num ritmo muito animado, uma mãe conta de sua relação com sua filha. É engraçado, emocionante e tocante. Recomendo muitíssimo que vocês comprem esta obra, e se deliciem com todos os momentos de mãe e filha que Thalita apresenta. Como a mãe não apresenta seu nome, e por respeito e homenagem à autora, ousei dar o nome de Thalita a esta mãe. Ficou um contraste bem interessante com o nome da filha. 
Boa leitura!

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CENA: SALA DE THALITA / INTERIOR / DIA 

Thalita está sentada ao computador, lendo emails. 
Thalita pensa em sua filha, Maria de Lourdes, olhando uma foto dela no computador.

Thalita: Tão crescida, mas ainda minha criança... Minha neném. 

Thalita sorri. 
Maria de Lourdes entra. 

Maria de Lourdes: Ooooi! 
Thalita: Oi, amor de mãe! Estava pensando em você pequenininha e deu uma saudade... Vem cá me dar um beijo? 

Maria de Lourdes se aproxima, senta no colo e enche Thalita de beijos. 

Maria de Lourdes: Lembra que eu fui ao cinema no sábado? 
Thalita: Lembro, claro. 
Maria de Lourdes: Sabe o que rolou lá? 
Thalita: O filme, ué. 
Maria de Lourdes: Não, mãe! Além do filme... 
Thalita: Pipoca? Refrigerante? Jujuba? 
Maria de Lourdes: Que mané jujuba, mãe? Pensa mais um pouco. 
Thalita: Chiclete?
Maria de Lourdes: Caraça, não acredito que você não deu uma dentro! Rolou um beijo, mãe. Beijo! 
Thalita: O quê? Suas amigas já estão beijando? Não me diga, Maria de Lourdes. Aposto que foi essa tal de Alice, sempre achei essa menina muito saidinha. 
Maria de Lourdes: Fui eu, mãe. Eu que beijei. 

Thalita se impressiona, mas tenta agir naturalmente. 

Thalita (Tentando não demonstrar animação): Você? Olha só, filha... Você beijou... Que bom... 
Maria de Lourdes: Só isso? Não quer saber como foi? Com quem foi? Achei que você ia morrer de curiosidade. 
Thalita: Nossa, estou louca, LOUCA para saber esses detalhes. Minha filha, você não faz idéia. Só espera um minuto que mamãe vai pegar um copo d’água. Quer também? 
Maria de Lourdes: Não, obrigada! 

Thalita levanta e vai até a cozinha. 
Thalita fica nervosa, imaginando o que pode ter ocorrido. 
Thalita suspira fundo antes de voltar à sala. 

Thalita: Então, filha, agora sou toda ouvidos. Quem é ele? 
Maria de Lourdes: É o Nando, primo da Alice. 
Thalita: Não acredito que é parente dessa Alice... 
Maria de Lourdes: Mãe! 
Thalita: Desculpa, desculpa, não está mais aqui quem falou. 
Maria de Lourdes: Ele mora em Friburgo, veio passar o feriadão aqui no Rio. 
Thalita: Interessante. E... foi... foi assim... (baixando os olhos) foi beijo de língua? 
Maria de Lourdes: Dââââ! 
Thalita (Franzindo a testa): Que é isso, Maria de Lourdes. Olha o respeito! Foi ou não foi de língua? 
Maria de Lourdes: Claaaaaro que foi, mãe! Você acha que eu ia dar um selinho num menino de 15 anos? 
Thalita: 15!? Menina, mas ele é um homem! Deve ser um galalau. Se bobear tem barba e tudo! Maria de Lourdes, você conhece os pais desse rapaz? Ele é de boa família? De boa índole? 
Maria de Lourdes: Ai, mãe, que coisa mais antiga! Que "rapaz"? Quem é que fala "rapaz" hoje em dia? E por que é que eu tenho de conhecer os pais de um menino só porque dei um beijo nele? Que coisa mais sem nexo. 
Thalita: O quê? Foi você que deu o beijo nele? 
Maria de Lourdes: Ah, tipo assim... eu tomei a iniciativa, mas ele já estava me azarando desde a lanchonete. 
Thalita: Você tomou a iniciativa? Isso é coisa de menina fácil, Maria de Lourdes! 
Maria de Lourdes: Mas meninos são lentos, às vezes precisam de um empurrão básico. Além do mais, eu não aguentava mais ser BV, né? 
Thalita: BV? O que é BV, Maria de Lourdes? 
Maria de Lourdes: Boca Virgem, mãe! Que desatualizada! 
Thalita: Mas que bobagem! Sabia que no meu tempo a gente só beijava... 
Maria de Lourdes: Alou! Não estamos no seu tempo! Vai começar esse papo chato de "no seu tempo" de novo? 
Thalita: Tá bom, desculpa. 

Thalita toma o resto de água que está no copo. 

Maria de Lourdes: Não vai perguntar se foi bom? 

Thalita quase cospe a água. 

Thalita: Sim, querida, claro. É... como foi? 
Maria de Lourdes: Foi molhado. Mas aí, mãe, muito, muuuuito molhado. 
Thalita: Molhado? Veja você, não me diga... 
Maria de Lourdes: Digo. Foi bem gostoso, mas também foi, assim, meio nojentinho, sabe? Muito estranho ter a língua de outra pessoa no meio da boca. 
Thalita: Menos detalhes, Maria de Lourdes! Não precisa contar cada segundo desse beijo, ande logo, encurte essa história! 
Maria de Lourdes: O primeiro foi uma baba só.
Thalita: Shhh! Olha o vocabulário chulo, Maria de Lourdes!... Espera aí! Como assim primeiro? Teve mais de um? 
Maria de Lourdes: Óbvio. Mais um, mais dois, mais três... e a cada beijo ia ficando mais gostoso e menos nojentinho. Tão bom, mãe! Tão bom! Não vi nada do filme. 
Thalita: Foi, filha? Nossa, que interessante... Mas vocês não ficaram de saliência no escurinho do cinema, não, né? 
Maria de Lourdes: Fala sério, mãe! Não acredito que você disse essa palavra! Saliência? Nem a vovó diria isso. Mas, para a sua informação, não, não fiquei de "saliência" no cinema. Eu me comportei muito direitinho. 
Thalita: Está bem, desculpa. Fico feliz em saber que foi bom, filha. E agora? Vocês... Vocês estão namorando? 
Maria de Lourdes: Dâââ! Claro que não! Ele mora longe. E eu não estou nem um pouco a fim de namorar! 

Thalita respira aliviada. 

Thalita: Isso mesmo, fihota! Vai aproveitar o restinho da sua infância, brincar, pular amarelinha, correr, jogar, é isso que você tem que fazer. 
Maria de Lourdes: Mãe, o que eu ia dizer é que eu quero ficar com os meninos, não namorar com eles. No máximo um namorix . 
Thalita: Namorix? Que diabo é isso? 
Maria de Lourdes: É um namorado que não é namorado sério, é só um namorix. É mais sério que ficar e menos sério do que namorar sério. 
Thalita: Sério? 
Maria de Lourdes: Sério. Sacou? 
Thalita: Saquei... 
Maria de Lourdes: Além do mais, se eu posso ter vários por que vou me prender a um só? Quando isso acontecer, eu vou estar apaixonada, pensando e querendo estar com o menino vinte e quatro horas por dia. Antes disso, quero beijar muitas bocas e ser feliz pra caramba! 
Thalita: É...
Maria de Lourdes: Vou tomar um banho.

Maria de Lourdes dá um beijo no rosto de Thalita. 
Maria de Lourdes sai para seu quarto. 

Thalita: (Sorri) Hoje, ela escolhe roupas, livros e CDs sozinha e já beija de língua no escuro do cinema. É... A menina cedendo lugar não à mulher, mas a uma linda mocinha. A minha mocinha. 

Thalita levanta e vai para a cozinha. 

Thalita: Que tem vontade e pensamentos próprios, opiniões formadas, certezas, desejos e verdades que borbulham na sua cabecinha adolescente. Cabeça que se orgulha de ter idéia e ideais, que me ensina muito, diariamente, e que se expressa com clareza e coerência através de gestos, atitudes e palavras.

Thalita volta e senta-se ao computador. 

Thalita: É, palavras... A partir de agora eu tenho certeza de que ela já pode falar por si própria.