Inventando: "Mistérios do poço"

A sequência desse mês vem de uma criação minha baseada nas previsões catastróficas de Nostradamus, um homem estudioso e místico, que viveu na França no Séc. XVI. Este poço do dinheiro, o chamado “Money Pit”, realmente existe. Fica no Canadá, numa ilha chamada Oak Island, no Oceano Atlântico. É um velho poço cheio de armadilhas primitivas que deram trabalho aos exploradores, mesmo os modernos. Existe muito mistério cercando o Money Pit, os corpos lá achados, e a ligação de tudo isso com cavaleiros templários. Eu acho um ótimo ponto de partida pra uma aventura sem igual. 
Boa leitura!

SEQ. – DELEGACIA / INTERIOR / NOITE 

O lustre da sala do delegado JEAN (um homem baixinho, 55 anos, gordo, careca e de bigode, com cara de poucos amigos) tem uma luz amarelada e sem muita intensidade. O Delegado pensa, sentado em sua cadeira, com apreensão no rosto pelo que viu durante o dia. 

ENTRA FLASHBACK: 
O Delegado Jean chega a uma tenda ao lado do poço, onde lhe mostram uma filmagem do interior do Money Pit. Ele tem cara de assustado. Numa sequência imediata, mostramos o visor do monitor, com imagens um tanto amadoras, onde se consegue notar a presença de um corpo humano. 

JEAN 
Mas como é que ele foi parar lá dentro? 

POLICIAL 1 
Eles, senhor. Identificamos três corpos no interior do poço. 

JEAN 
Há quanto tempo este poço está fechado? 

POLICIAL 2 
Não sabemos ao certo, senhor. Só podemos dizer que tem ao menos um século. O poço é cheio de armadilhas arcaicas, mas que ainda funcionam. Precisamos de quatro tentativas por vias diferentes para chegar a esta profundidade. 

JEAN 
Deus do céu. 

FIM DO FLASHBACK 

VOLTA À SEQ. NORMAL: 

Na sala de Jean entra DOUGLAS (policial alto e forte, 35-40 anos), assustando o delegado, que está concentrado. 

JEAN 
Mas que modos são esses, Douglas? Não sabe mais bater à porta? 

DOUGLAS 
Desculpe, senhor, mas eu bati. O senhor estava muito concentrado. Talvez por isso não tenha percebido. 

JEAN 
Tá, ta... O que você quer? 

DOUGLAS 
Tem um homem aí fora querendo falar com o senhor. Disse que é urgente, e que se refere ao poço. 

JEAN 
O Money Pit? 

DOUGLAS 
Esse mesmo, senhor. 

JEAN 
E ta esperando o que, homem. Mande-o entrar. 

Douglas sai, fechando a porta. CLOSE no semblante de apreensão do delegado. Quando Douglas abre a porta novamente, vemos PATRICK (30 anos, francês típico, alto e magro, usando óculos). 

PATRICK 
Boa noite. O senhor é o delegado responsável pelo Money Pit, suponho. 

JEAN 
Eu mesmo! (estendendo a mão) Delegado Jean Sarou. 

PATRICK 
(Apertando a mão de Jean) 
Obrigado por me receber, delegado. 

JEAN 
Sem problema. Mas o que o trás aqui? 

PATRICK 
Eu sei de quem são os corpos que vocês encontraram no Money Pit. 

JEAN 
Você era amigo deles? 

PATRICK 
Não, nem poderia. Eles morreram há muitos anos. Nem meu avô era nascido ainda. 

JEAN 
Do que você está falando? Quem eram estes homens? 

PATRICK 
Nobres franceses, senhor. Eu sei quem são eles, e preciso da ajuda do senhor, (com semblante mais sério) pois algo de muito espantoso vai acontecer com todos nós em breve. 

JEAN 
Quem é você? Algum profeta? Algum mágico? Esta investigação não é uma brincadeira. 

PATRICK 
Não estou brincando. Mas não será nada fácil o senhor se convencer da história que vou lhe contar. 

JEAN 
(Para si) Lá vem esses leitores do Dan Brown me atormentar. 
(Pausa) 
Então vamos começar logo. E comece falando desta história de tesouro perdido dos Templários. Já vi pessoas comentando sobre isto lá nas imediações do Money Pit. 

PATRICK 
Temo que estejam todos errados, senhor Sarou. Na verdade este tesouro todo pertence ao governo francês. Mais precisamente, este tesouro pertence à família Bourbon. 

JEAN 
Como assim? 

PATRICK 
O senhor e sua equipe acharam os corpos de preceptores de Luís XVII, que foi trazido para cá logo após a eclosão da Revolução Francesa. 

JEAN 
O menino-rei? Impossível. Ele morreu na prisão logo depois da queda da Bastilha. Se você conhecer um pouco mais a história do seu país, senhor Patrick, vai saber que Luís XVII morreu na França, e não aqui. 

PATRICK 
Na verdade eu sou historiador, e não nego tudo o que a história oficial do meu país apresenta. A questão é que eu sei de outra história que não foi divulgada por ninguém e que foi mantida em absoluto sigilo até hoje. 

JEAN 
Então quero saber esta história. 

PATRICK 
O menino-rei da França foi retirado da masmorra e substituído por outro menino, que estava muito doente. Homens fieis ao Rei Luís XVI trouxeram o garoto para esta colônia francesa, na esperança que um dia ele retornasse e assumisse o trono francês. 

JEAN
Vamos aos finalmentes, por favor!

Patrick olha para Jean por um momento, e continua sua explicação.

PATRICK
Ocorre que logo que chegou aqui, ao invés de ficar incógnito, o menino-rei foi tratado como monarca que era, e logo o governo revolucionário francês mandou que desaparecessem com ele. Colonos revoltosos então foram à procura do garoto, mas só encontraram seus preceptores, já mortos por uma tempestade de raios que acabara de cair na região. Luís XVII nunca mais foi visto, mas acredita-se que ele viveu entre os ingleses nas treze colônias e teve descendência. 

JEAN 
(começando a se interessar) Acredita-se como? 

PATRICK 
O Senhor conhece Nostradamus? 

JEAN 
(Olhando para o teto, sarcástico) Estava indo tão bem! 
(Pausa... para Patrick) Já ouvi falar, mas o que ele tem a ver com isso tudo? 

PATRICK 
Ele previu que estes corpos iriam ser encontrados. 

JEAN 
Ah... Agora eu entendi. Você é mais um destes malucos que acreditam em profecias. 

PATRICK 
Se Nostradamus estiver certo, o Papa morrerá em breve, e um homem nascido no Iêmen vai invadir e dominar a Europa ocidental... 

JEAN 
(cortando Patrick) 
Bom, se Nostradamus estiver certo, então, eu o procurarei. Até lá eu vou seguir com minhas investigações. 

Patrick olha mais sério ainda para Jean por um instante. Close na reação dele. 

PATRICK 
Será um prazer receber seu chamado, delegado. 

Patrick aperta a mão do delegado Jean e sai rapidamente, sem olhar para trás. O Delegado senta-se em sua cadeira, agora mais sério, com o olhar fixo para frente. Ele reclina sua cadeira e olha para o teto, soltando um suspiro. A câmera sobe até focar a lâmpada amarela. 

CORTA PARA: