Esses diálogos: Um reencontro

Pessoal, uma explicação: Este é um texto antigo meu, que foi criado há pelo menos um ano, e, portanto, embora pareça, não tem nada a ver com o texto “A Atriz e o Poetinha”, já postado aqui. Trata-se de um diálogo simples. Não quis colocar as conotações de um roteiro exatamente para que vocês possam criar em suas mentes os modos de falar, e a postura dos personagens. Enfim, é mesmo para que todos possam entrar na história, e visualizar em suas mentes um universo bem particular dessa cena. Tomara que gostem, e, já peço que relevem o fato de ser um tanto grande.
Bom, abaixo segue um diálogo que marca o reencontro de duas pessoas que certamente se gostaram muito no passado, e depois de um período de afastamento por algum determinado motivo, voltaram a se encontrar. Letícia é uma atriz extremamente bem resolvida, e Henrique é um rapaz sonhador, que descobriu que podia ser feliz criando histórias. Mas nenhuma dessas profissões é importante no momento daquele reencontro. Eles querem falar de si, da interrompida relação, enfim, querem conhecer o que um não sabia da vida do outro naquele período que viveram separados.

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(Após a apresentação de Letícia, Henrique vai até onde os atores estavam recebendo os cumprimentos, para tentar falar com ela)

- Oi! Será que você ainda se lembra de mim?
- Henrique... Como eu poderia me esquecer de você?
- Sei lá! Já faz um tempinho que não nos falamos. Talvez você tivesse me esquecido. Talvez essa fosse sua intenção.
- Como se eu pudesse... Aliás, como se pudéssemos!

(Silêncio)

- O que você está escondendo aí?
- Ah! São pra você. Assim, procurei o melhor arranjo. Se você não gostar, pode falar, tá!
- Nossa... Minhas prediletas. Você não esqueceu nem disso, Henrique! Que lindo.
- Parece que nem do seu cheiro. Você ainda usa aquele creme de morango.
- Ah! Pára... Até do meu creme de corpo você lembra. To pasma.

(Silêncio)

- Ah! Sua peça estava ótima.
- Ai, que bom que você gostou. Faço tudo sempre com muito amor. Você sabe que eu amo atuar, né? Gosto de me doar pelos trabalhos que faço.
- Por isso tudo sai muito bem. Você sempre foi talentosa.
- Obrigada.
- Todo esse tempo eu fiquei te acompanhando de longe. Do meu cantinho. Como eu te prometi. Sem te incomodar.
- Não fala assim. Eu nunca pedi pra você me prometer nada.
- Não, não! Você nunca me pediu mesmo. Mas eu prometi. E cumpro o que prometo. Fiquei esse tempo todo calado. Mas, quando soube que você viria aqui na minha cidade, não resisti. Tive que vir te ver. Eu nem ia te procurar na coxia. Mas eu precisava te entregar essas flores.
- Bom, obrigada mesmo. Mas você não vai embora agora, né?
- Ah, Letícia. Eu queria ficar. Conversar mais com você. Claro, se isso não for te atrapalhar.
- Não atrapalha. Eu tenho só que tirar a maquiagem e esse figurino. Vou só cumprimentar aquele pessoal ali e...
- Tudo bem. Mas não é sobre isso que eu pensei!
- Não atrapalha, Henrique... Eu entendi... To te falando que não atrapalha.
- Vou te esperar lá no palco, então.
- Tá...
- Vou lá. Nos vemos então. To te esperando.
- E mantém esse sorriso que você deu agora, tá!
- Esse?
- Esse mesmo!

(Momentos depois, no palco)

- Eu achei que você não vinha mais.
- Nossa! Eu nem demorei tanto assim.
- É verdade. Eu que sou ansioso mesmo... Guardou as flores?
- Claro. Coloquei num vaso pra não murchar. Fiquei muito feliz mesmo de você ter lembrado que eu sou apaixonada por este tipo de flor... E do meu creme corporal também, né!
- Eu não lembrei. Pra lembrar eu teria que esquecer primeiro, certo?
- Certo, espertinho.
- Viu, eu continuo acertando.
- Mas me conta? O que você tem feito?
- Eu ando por aí, lutando pra realizar meus sonhos. Tudo o que eu sempre quis fazer em minha vida eu to conseguindo. E to descobrindo que posso fazer coisas novas também. Alguém me disse q levo jeito pra escrever... E eu acreditei nisso. To levando a sério mesmo.
- Coisa boa.
- E você? O que tem feito?
- Ué... to trabalhando muito. Atuando. Recebendo convites para peças. Aos poucos vou me tornando conhecida. O pessoal tá me descobrindo ainda. Mas to muito feliz com tudo que já conquistei. Você sabe que...
- Que você não é de sonhar com os pés no chão!
- Isso. Com essas palavras mesmo. Afinal...
- As estrelas só flutuam!
- Mas você me decorou.
- Não, eu nunca te decorei. Só procuro entender você. E foi te entendendo que passei a gostar de você, do seu jeito... Mas isso é só pensamento de um romântico bobo. Liga não.
- Eu to gostando. Pode continuar!
- Ah! É que eu já te falei isso tanto. Não quero ficar chato. Essa é a noite do nosso reencontro. Não é pra ficarmos falando do passado. Ainda mais do passado que eu idealizei, enquanto você vivia, acho que até muito bem. Melhor que eu, pelo menos...
- Ai, como você é dramático!
- Não é drama...
- Claro que é. Você faz tudo parecer um grande drama. Sempre fez.
- Não é tanto assim. Eu sou o que eu sinto e o que eu penso. Se isso parece drama, não posso fazer muita coisa. Essa é minha transparência. Você sabe, sempre soube, o que esperar de mim.
- Isso é verdade. Eu sei como lidar com você, porque você sempre demonstrou o que sentia. Disso eu nunca pude reclamar.
- Pois é. Essa minha transparência toda é o que acabou comigo. Aposto que você desistiu de mim por isso. Achou drama demais.
- Henrique, as coisas não são tão simples assim...
- Claro que são simples, Letícia. Você quem complica tudo. Sempre complicou. Lembra quando você quase desistiu dos seus sonhos pra...
- Lembro, Henrique! Mas não foi você quem disse que hoje não é dia de ficarmos falando do passado?
- Sim, eu disse.
- Então me convide para fazermos alguma coisa. Afinal, essa é sua cidade. Você deve conhecer Belo Horizonte muito bem... Melhor que eu, pelo menos!
- Hum... Boa idéia! Vamos sair. Mas... Você vai embora hoje ainda?
- Não, não... Vamos ficar em cartaz aqui todo o fim de semana. Nada como ter um bom patrocinador. Eu sei o quanto sofremos para conseguir esse patrocínio.
- Mas que coisa boa. Se você quiser, posso te levar para conhecer os melhores lugares de Belo Horizonte. A Praça da Liberdade...
- O que tem de tão bom em uma praça, Henrique?
- Ué, espere pra ver. Não é só uma praça... Aliás, vou te levar lá primeiro.
- Estou com você. Por favor, me mostre o que essa cidade tem de melhor. Ai de você se me levar a um lugar ruim, hein!
- Eu jamais te levaria a um lugar ruim. Você merece o melhor.
- Você não existe, Henrique. Mesmo com todo nosso passado, você ainda é capaz de me dizer palavras doces. Nem sei se as mereço.
- Se não merecesse, eu não diria. Eu não sou esse cordeirinho. Mas eu sei o porquê de estarmos juntos aqui, hoje, e de eu nunca ter desistido de você.
- Ah é! Por quê?
- Descobre, ué! Isso é voe quem vai ter que descobrir sozinha, Letícia. E você vai descobrir, no tempo certo. E se quiser também, claro!
- Isso é um desafio?
- Não... É uma descoberta... E as descobertas precisam ser solitárias. Principalmente as que mexem com nosso interior.
- Nossa. Agora você foi tão profundo...
- Sempre fui, Letícia! E eu acho que isso foi o maior problema... O que te afastou de mim...
- Agora você está sendo melancólico.
- Desculpa. Esse não é o lugar, nem o momento certo para termos essa conversa. Nem sei ainda se precisamos falar disso...
- Vamos ao passeio?
- Ah sim, o passeio! Vamos sim. Você tem alguma tipo de comida que te agrade? Que você goste mais?
- Ué, você esqueceu das minhas comidas preferidas? Lembrou de tudo...
- Eu lembro que você... É quase vegetariana. Quase não comia carnes... E também não gostava de leite, e dos derivados do leite...
- Eu não preciso mesmo falar nada para você...
- Frutos do mar! Eu lembro que você era apaixonada por frutos do mar...
- Nem todos... Mas tem um que eu amo...
- Ostras! Bom, vou te levar para comer ostras, então.
- Posso recusar?
- Por quê?
- Porque isso eu como na minha cidade. E você deve lembrar que prefiro os que são feitos na minha família... Desculpa.
- Que isso! Não precisa se desculpar. Fazemos outra coisa... Vou te levar num barzinho muito bacana que tem lá na Savassi. Tem uma música boa, um ambiente legal. Podemos pedir uma tábua de frios, com uns sucos... Coisa leve e natural, pra você manter esse seu corpo esguio aí.
- Assim eu fico vermelha de vergonha, Henrique.
- Sabe, você fica bonita com vergonha. Eu nunca te vi com vergonha de algo ou de alguém. Você é a pessoa mais segura que um dia eu conheci. Sempre fez o que quis. O que te fez feliz!
- Mas você sempre soube me deixar com vergonha. Só nunca notou isso. Mas Você tem o dom de me deixar vermelhinha.
- Eu? Eu sempre fui o envergonhado de nós dois. Você, e esse seu jeito decidido, sempre me encantou, mas eu ficava envergonhado também.
- Tá... Acredito nisso porque sei que essa é uma das verdades que você nunca escondeu de mim... Vamos logo pro “barzinho”.
- Vamos, rainha!
- Rainha... Não, obrigada! Me desça já desse pedestal, Henrique. Eu não sou tanto, e não mereço toda essa admiração que você tem por mim. E VOCÊ SABE MUITO BEM DISSO!
- Tudo bem. Não está mais aqui quem falou