Inventando: "De repente..."

É com muita alegria que retorno a essa apresentação de um roteiro para vocês. Escolhi uma cena que tinha escrito há um tempo, e que acho interessante porque é aberta à interpretação de quem lê. E a brincadeira aqui é essa: Tentar entender o que aconteceu! Pra não guiar os pensamentos dos leitores, não dei nem as características dos personagens. quero ver como se saem. Comentem, digam o que entenderam do desfecho da cena.
Boa leitura!


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01 - PISCINA DE GUTO / EXTERNA / DIA

GUTO está dormindo em uma rede, profundamente. A câmera passa em detalhe, num clima de tranquilidade no ambiente. Vemos uma mão tocar seu ombro, como que o acordando. Quando Guto acorda, vemos ANA sorrindo para ele.

ANA
(Ela dá um beijo em Guto)
Tá na hora de acordar, dorminhoco. Vai ficar nessa rede o resto da vida?

GUTO
Quantas horas são?

ANA
São quatro da tarde.

GUTO
Nossa. Eu tinha que me arrumar. (Pausa) Mas você não vinha só de noite pra cá?

ANA
Resolvi passar aqui pra te ver.

GUTO
Eu fiz alguma coisa de errado? Não, porque você só aparece assim de repente quando tem DR no ar.

ANA
Fez não. Só queria vir mesmo.

GUTO
(Desconfiado)
Ah!

ANA
Vou aproveitar e dar um mergulho.

GUTO
(câmera em close. Ele está sonolento ainda)
Beleza. Tem um biquíni seu lá no meu quarto...

Guto ouve um barulho de água e abre os olhos.

GUTO
(Para si)
Essa mulher pulou na piscina de roupa?

Ele se levanta e vê Ana nadando de roupas na piscina. Com um sorriso desconsertado, Guto levanta-se e caminha até a beira da piscina. Ela nada feliz, sorrindo. Ele senta-se em uma cadeira, na sombra e fica a observando. Aqui temos algumas tomadas de Ana nadando. Música instrumental acompanha as tomadas.
Ana sai da piscina e se senta em uma cadeira ao lado da de Guto.

GUTO
Vou pegar uma toalha pra você.

ANA
Precisa não. Tá quente!

GUTO
(olhando para Ana)
'Cê tá muito estranha.

ANA
Tô não... Você que fica aí procurando explicação pra tudo. Guto, só relaxa, ok!

GUTO
Ih... Tá bom.

Os dois passam a olhar a piscina.

ANA
(Desconsertada)
Guto, se eu morresse, você arrumaria alguém logo?

GUTO
Que papo é esse, Ana?

ANA
É uma pergunta. Responde, ué.

GUTO
Não sei. Talvez depois de um tempo. Mas não de uma hora pra outra.

ANA
(Depois de um tempo)
E você me esqueceria?

GUTO
Não. A gente não esquece quem ama (sorriso tímido). A gente só aprende a conviver com a falta desse amor. Mas todo mundo tem direito de refazer  vida, Ana. Eu acho que iria encontrar alguém. Não pro seu lugar. Mas pra eu não ficar sozinho.

ANA
Essa foi a primeira vez que você disse que me ama sem eu pedir nada.

GUTO
É porque isso não precisa ser dito todos dia. Mas eu sinto, e sei que você sabe.

ANA
Você iria sofrer, né?

GUTO
Claro! Você não sofreria se eu morresse?

ANA
Eu não suportaria.

GUTO
Então... É isso que eu tô dizendo.

ANA
E se eu te traísse?

GUTO
Seria o mesmo que me matar.

ANA
É... Eu também morreria.

Eles ficam em silêncio. Ana está normalmente na cadeira, contemplando o dia bonito. Guto não olha para ela, mas está intrigado, tentando entender aquela história.

GUTO
Tem certeza de que tá tudo bem, Ana?

ANA
Tenho. Tudo certo! Aliás, tenho que ir. Era só pra passar aqui pra te ver. Já fiquei muito.

GUTO
Fica mais?

ANA
Vou ficar, mas não agora.

Ana dá um beijo em Guto e sai dali. Ele a acompanha com os olhos, sorrindo. Assim que ela sai do foco, o celular dele toca. Guto atende com um sorriso alegre.

GUTO
Alô


Ele então passa a perder o sorriso nos lábios e aos poucos sua expressão vai ficando séria. Então, Guto começa a deixar o celular sair da orelha, abaixando-o lentamente, a câmera vai se afastando dele, e a imagem some em FADE OFF.

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Leonardo Távora