Livro em Cena: "Dom Casmurro"

Olá, leitores! É com grande felicidade que chego a mais um Livro em cena aqui no “Literatura Exposta”. Este mês eu escolhi uma das obras mais belas da literatura brasileira. É, de longe, minha história favorita, pela incrível construção das personagens, pela ótima história, de uma profundidade rara, e por uma série de outras coisas, sejam elas no que tange os elementos cênicos da obra, sejam de ordem pessoal. Falo aqui da, obra de Machado de Assis: Dom Casmurro. É um livro que fala de desencontros da vida, mas que, sobretudo, fala de amor. De um amor mais forte que o tempo e a distância.
Dom Casmurro é um livro que desperta paixões, amores que nem o tempo consegue apagar, como o de Bentinho e Capitu, sua musa dos olhos de ressaca. Por ela ele enfrentou o mundo, e para não se consumir em dúvidas sobre seu caráter, Bento enfrentou a si mesmo e ao seu coração. O que posso dizer é que Capitu nos desafia a tentar entender o que se passa nas mentes das mulheres. Ela é o símbolo do mistério. Bentinho nos faz aprender que, por mais longe que estejamos do nosso amor, essa distância jamais será suficiente para apagar um sentimento verdadeiro que existe dentro de nós.
Boa leitura!

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CENA: CASA DE CAPITÚ / INTERIOR / DIA

Bentinho observa Capitu pela porta.
Capitu está escovando os cabelos, distraída.
Bentinho decide se aproximar silenciosamente (pé por pé).
Capitu vê Bentinho se aproximando pelo espelho que está em sua mão.

Capitu: Há alguma coisa?
Bentinho (Assustado, pára): Não há nada! (andando normalmente agora) Vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
Capitu: Eu, bem. José Dias ainda não falou?
Bentinho: Parece que não.
Capitu: Mas, então, quando fala?
Bentinho: Disse-me que hoje ou amanhã deverá tocar no assunto, mas não vai logo de pancada. Ele que falar, assim, por alto e ao longe... Um toque!
Capitu: Mas...
Bentinho: Depois ele entrará nesta matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem resolução feita.
Capitu (Séria): Que tem, tem. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, você não precisaria falar para ele.
Bentinho (olhando para o chão): Te entendo.
Capitu: Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto... Acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas, poderá alcançar? Ele é atendido, mas, se...
Bentinho: Mas o que posso fazer? Dependo dele.
Capitu: É um inferno isto... Você teime com ele, Bentinho.
Bentinho (com coragem): Teimo! Hoje mesmo ele há de falar.
Capitu: Você jura?
Bentinho (sorrindo): Juro! Deixe ver os olhos, Capitu?

Capitu olha fixamente para Bentinho.
Bentinho a olha nos olhos, como que os examinando.
Eles ficam se admirando.
Bentinho parece disperso, como se sua mente estivesse em outro lugar, sonhando.
Capitu sorri.
Bentinho passa as mãos nos cabelos de Capitu, sempre voltando o olhar para os olhos dela.

Bentinho: Sou capaz de pentear, se você quiser.
Capitu: Você?
Bentinho: Eu mesmo.
Capitu: Vai embaraçar-me o cabelo todo.
Bentinho: Se embaraçar, você o desembaraça depois.

Capitu vira-se de costas para Bentinho, e lhe dá a escova.
Bentinho pega seu cabelo e começa a escovar.
Sentindo dificuldade de escovar os cabelos de Capitu de pé, Bentinho recorre a uma cadeira.

Bentinho: Senta aqui. É melhor.

Capitu sentou-se, rindo.

Capitu: Vamos ver o grande cabeleireiro.

Bentinho começou novamente a escovar os cabelos de Capitu.
Capitu fechou os olhos, para sentir as mãos de Bentinho.
Bentinho sorri atrás de Capitu, feliz.
Bentinho parte o cabelo de Capitu, e começa a trançá-lo.
Bentinho se atrapalha com alguns pedaços da trança, e os desmancha para refazer.
Ao terminar, Bentinho junta as pontas e as amarra.

Bentinho: Pronto!
Capitu: Estará bom?
Bentinho: Veja no espelho.

Capitu joga a cabeça para trás, e fica olhando Bentinho.
Sem conseguir tirar seus olhos dos dela, Bentinho fala:

Bentinho: Levanta, Capitu!

Capitu continua imóvel, olhando Bentinho.
Bentinho, então, começa a se abaixar.
Bentinho aproxima seu rosto do rosto de Capitu.
Capitu move os lábios.
Bentinho a beija.
Capitu levanta-se rápido.
Bentinho, assustado, se afasta, ficando em uma parede, sem fôlego.
Ao se recuperar, Bentinho olha para Capitu, que olha para o chão.
Eles não conseguem falar nada.
Capitu ouve os passos de sua mãe, e se recompões rapidamente.
Quando D. Fortunata chega, Capitu já não tem mais nenhum sinal de acanhamento.

Capitu: Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. Pediu para acabar o penteado e fez isso. Veja que tranças.
D. Fortunata: Que tem? Está muito bem. Ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear.

Bentinho não sabe o que dizer. Está com muita vergonha.
Capitu, como se nada tivesse acontecido, começa a desfazer as tranças.

Capitu: O que, mamãe? Isto? Ora, mamãe...
D. Fortunata: Que bobagem, minha filha!
Bentinho: Eis aqui um que não fará grande carreira pelo mundo, por menos que as emoções o dominem.
D. Fortunata: Bentinho, sua mãe mandou lhe chamar para sua aula de latim.
Bentinho: É verdade! Preciso ir. Até mais...

E Bentinho, morrendo de vergonha, sai correndo da casa de Capitu.