Triste e pobre poetinha

É de saber popular que um poeta precisa ser triste, e ter uma amada que nunca lhe dê a menor peteca, para que ele possa escrever cada vez mais coisas belas, que encantem os olhos e embalem os amores que, diferentes dos dele próprio, deram certo. Assim, um poeta feliz não é poeta, porque para escrever poesias é preciso ser maior que os homens, e viver a insuportável vida, repleta de negativas e, às vezes ausências, que nem arranham o coração que se agarra àquele amor impossível como se dele dependesse sua própria existência.
Poetas amam perdidamente. Tanto que se perdem dentro do seu próprio sentimento. Não raras vezes, os poetas são pessoas dominadas por um amor arrebatador, destes que, por mais que passem os dias, meses, anos mesmo, não diminui nem se finda, mas, ao contrário, estranhamente se fortalece. Mas quanto mais perfeita for a poesia, e quanto mais sentimento ela passar para quem a lê, mais complicada é a vida do poetinha, pois geralmente são os amores mais impossíveis, os que o ser amado recusa, talvez por não querer ver o poeta sofrer, que mais inspiram o pobre escritor a criar seus versos de amor sem fim.
Todo poeta tem uma musa. São sempre maravilhosas, estrelas de sua vida. Se destacam no mundo por seus diversos talentos, ou tão somente pela pueril beleza. Mas no universo do coração do escritor, são mágicas pessoas, estrelas de luz mesmo. Nem toda alegria no mundo é capaz de descrever o que se passa dentro do corpo de um escritor quando está diante de sua musa. A estrela de sua vida é capaz não apenas de lhe dar a necessária inspiração para escrever, como também acender nele uma chama caudalosa, que toma conta dele e o torna forte, corajoso, feliz enfim.
Mas eu penso mesmo que a dor do poeta é saber que sua musa não se permite sentir o amor que ele tem para dar. Perder no jogo do amor pode significar, muitas vezes, o fim da própria vida do escritor, pois é insuportável saber que todos os pensamentos não conseguem atingir um coração. Poetas escrevem para tentar diminuir sua dor, pra tentar jogar fora todo não que recebeu ao seu amor, ou mesmo, quando alcançam as raias da loucura, e pensam que a estrela da sua vida um dia aceitou o seu amor, e vive a rotina que não lhe faz mal, ao ser surpreendida a cada dia com uma nova forma de dizer “eu te amo”, que nosso intrépido criador de personagens inventou para fazer o dia dela mais feliz.
O problema dos melhores poetas é que as estrelas de suas vidas geralmente não brilham somente no céu dos seus sentimentos. Elas iluminam as vidas de várias outras pessoas. São livres, e assim devem ser, pois todo amor que tem a premissa de aprisionar é um falso amor, ou uma verdadeira mentira, sentimento que não tem valor algum, nem qualquer possibilidade de felicidade. Pois o amor só é grande e forte se também for livre, mas tão livre que permita aos dois corações se unirem por vontade própria, sem para isso perderem suas vidas próprias e únicas. Quando duas pessoas decidem virar uma, nunca deve significar que alguma delas tenha que ser abafada em nome do amor. Esse sentimento só tem verdade se faz as duas almas viverem em comunhão e se tornarem iguais, unidas, mas com seus próprios passos.
Enfim, essa é a triste sina dos poetas. Por amar demais, muitas vezes são incompreendidos justamente por quem tanto se dedicam. Então, vivem de fazer feliz as vidas das pessoas que os lêem, pois, de algum modo que não sei explicar, isso pode trazer algum pedaço da alegria que um amor que não pode ser correspondido não pode lhes dar. Por isso, sempre que uma poesia encantar seus olhos, lembre-se de dar valor àquele que a escreveu. Muitas vezes, a história da vida dele pode ser não mais que um reflexo da sua própria.