Literatura em Capítulos: Vidas Amigas

Capítulo VI

"Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos." Sócrates 

Em sua casa, Helena reuniu os amigos para lhes dizer o que havia acontecido na casa de Hugo Pontes. Ela e Augusto contaram como se desenrolou a conversa. Helena tinha o objetivo claro de mostrar a Carol e Rodrigo que não tinha maneira de se chegar a um acordo que pudesse preservar a mata e os empregos. Pra piorar tudo, o prefeito Zé Carlos ainda falou um monte para os jovens, e isso afastou qualquer possibilidade de entendimento entre eles. 
- Quem está comigo? – Perguntava Helena aos amigos. 
- Você sabe bem que eu vou brigar nessa luta – Disse Augusto, com confiança. 
- Obrigada, meu amigo. E vocês? – Ela olhava com firmeza para Carol e Rodrigo. 
- Sim, Helena... Não podemos deixar que Belmonte sofra esse atentado – Disse Carol. 
- Eu estou precisando mesmo de alguma coisa que me dê alegria. Tô nessa! – Rodrigo falou com convicção. 
- Ótimo. Eu sabia que poderia contar com vocês. 

Então, Helena começou a pensar, com seus amigos, sobre como agir para impedir a derrubada da mata para a construção da fábrica. Era preciso fazer algo, mas enfrentar Hugo Pontes, ainda mais com o apoio do Prefeito Zé Carlos, tornava a tarefa muito mais complicada. E o argumento deles certamente seduziria muito o povo, com a promessa de mais empregos, e com isso, mais renda. Não se podia ignorar que os habitantes teriam mais renda com a chegada da fábrica. Mas o preço para esse bem estar era muito alto. 
Carol deu a ideia de uma passeata. Dessa forma, chamariam a atenção das pessoas para o que estava acontecendo. E poderiam informar que não era vantajoso acabar com toda a diversidade que tinha naquele lugar para que se gere trabalho. Aos poucos, no pensamento de Carol, eles conseguiriam apoio do povo para sua causa. Essa até poderia ser uma boa forma de agir, mas era pouco, pensava Helena, para enfrentar o Prefeito e seu jeito fácil e manso de falar, que acabava conquistando adeptos rapidamente. 
A verdade é que apenas uma passeata não seria o suficiente. Helena entendia bem, pois cresceu vendo seu pai atuar na política da cidade, e sabia como Zé Carlos podia ser baixo em uma disputa. Lógico que ele estava ganhando algo além dos empregos das pessoas, afinal, o Prefeito não dava um ponto sem nó. É que no interior essas coisas passam mais despercebidas das pessoas, muito porque não tem uma imprensa forte que evidencie os desvios de caráter que algumas pessoas têm quando detém o poder nas mãos. 
Enquanto Helena confabulava com seus amigos, na casa de Hugo Pontes o assunto era outro. Pelo menos para Diego. Ele não conseguia tirar a imagem daquela menina que ele ainda nem sabia o nome da sua mente. Ele nem conhecia Ana Maria ainda, mas tinha se encantado por aquela moça que vira na pracinha. Sabe aqueles momentos em que achamos que encontramos nossa metade? Diego estava se sentindo assim. 
Jogado em sua cama, ele sonhava acordado. Estava com os olhos abertos, com um largo sorriso no rosto, mas com o pensamento longe, grudado na imagem de Ana Maria. Diego estava com o pensamento tão distante que nem percebeu quando sua irmã, Laurinha, entrou em seu quarto. Ele não gostava muito de ser incomodado. Coisa de adolescente que quer ter plena noção do seu espaço, ainda que este seja apenas o seu pequeno quarto. Mas ele, naquele momento, só tinha pensamentos pra garota da pracinha. 
- Tudo bem por aí? 
- Laurinha... Nem vi você entrar. 
- É... Eu saquei. 
- O que você tá fazendo aqui? 
- Vim falar com você. Sumiu o dia todo. 
- Ah! Eu tava por aí, vendo qual é a dessa cidadezinha. Até que não é tão ruim. 
- Você dizendo que aqui ao é ruim... Tá doente? 
- Não, Laurinha... Só acho q dá pra viver fora da cidade grande. 
- Você não tá bem, Diego. Não pode! 
- Ué, sai você também. Aposto que vai achar coisa boa. 
- Eu hein. Quero voltar pro meu ap... Pro shopping... Fala sério! Só um doido pode gostar de um lugar que num tem nada pra fazer. 

Antes de criticar Laurinha, pense que qualquer mudança é complicada, ainda mais quando se sai de uma cidade grande e vai pra um lugar pacato como Belmonte, onde as horas demoram pra passar, e a vida tem um ritmo muito mais singular. É muito bonito viver em comunhão com a natureza, rodeado de nascentes, laguinhos e pequenas cachoeiras, como existem em Belmonte, mas pra quem já é acostumado com isso. Pra Laurinha, tudo é diferente, e se acostumar com isso pode levar algum tempo. 
Diego foi muito prudente ao não falar o motivo principal dele estar gostando tanto de Belmonte. Ele nem sabia o nome da garota. Não podia falar dela mesmo. Além do mais, parece que a mãe dela não iria facilitar as coisas. Pelo jeito como ela mandou a menina pra dentro da igreja, parecia uma carne de pescoço. Enfim, ele precisava de mais segurança para falar disso. Se bem que, pensando bem... Laurinha poderia ajudar nisso, se ela conseguisse se aproximar da garota. 
- Humm... Eu aho que tive uma boa ideia! 

Diego ficou, então, maquinando um modo de convencer sua irmã a participar dessa conquista. E depois de muito falar na reunião, Helena se convenceu da ideia de Carol, mas apenas como um começo de ações. Ela estava pensando novas abordagens para sensibilizar a população sobre o problema que a nova fábrica geraria. Mas a manifestação seria um bom ponta-pé inicial. Eles então começaram a formatar a manifestação. E cada um tinha uma ideia incrível para fazê-la. Mas a que venceu foi a de caminhar da pracinha até o inicio da mata, na estradinha de terra, onde era o terreno que seria desmatado. 
Definido tudo, era hora de começar a se mexer. Helena pedia a Carol para preparar o material que eles usariam. Augusto ficou incumbido de chamar as pessoas, já que ele era bom nisso. Conseguia chamar a atenção das pessoas. Rodrigo a ajudaria na preparação das outras coisas. Helena queria mesmo era um momento para conversar com seu amigo, que não passava por um momento muito feliz. Ela deu a ele o espaço que ele precisava, e o deixou pensar, mas era chegado o momento de ajudá-lo. Ela sabia bem disso. Ela conhecia Rodrigo, e sabia como lidar com ele. 
- E aí, meu amigo... O que está acontecendo nessa cabeça? 
- Não faço a menor ideia, Helena. 
- Então por que anda tão entristecido? A Carol anda muito preocupada com você. 
- Eu só queria ficar um pouco sozinho. Tem dias que precisamos disso. 
- Sim, é verdade. Mas vários dias assim não é normal, e você tem q concordar comigo. 
- Eu concordo. Só não consigo é fazer diferente. Meus animais não me dão alegria. Achei que se ficasse um tempo com eles, melhoraria, mas não. 
- Rodrigo, você tá precisando de ajuda, mas não da minha ou da Carol, que você tem sem nem pedir. Você precisa de alguém que tem o que não temos, que é o conhecimento. Você precisa de um médico. 
- Helena, não exagera. Eu só estou triste... 
- E vai deixar chegar em qual grau de tristeza pra procurar ajuda? 
- Como assim? 
- Rodrigo, se você se tratar agora vai melhorar disso aí em dois pulos. Mas se insistir em ficar apenas isolado, isso só vai piorar. Eu não sou ninguém pra dizer se você só está triste, ou se tem um inicio de depressão. Só um médico. 
- To entendendo. 
- E só ele poderá te ajudar. Claro que eu estarei do seu lado sempre, te apoiando e fazendo minha parte. Mas eu seria uma péssima amiga se não te alertasse pra essa possibilidade. Só passar a mão pela sua cabeça e dizer que eu estou aqui não vai te ajudar a ser mais feliz, porque eu acho que tem algo aí dentro de você que está precisando de cuidado. 
- É difícil, Helena! Mas eu agradeço muito sua atenção comigo. 
- Nada que você também não faria por mim. Eu sei disso. 

Os dois deram um abraço bem forte. Rodrigo já estava chorando feito uma criança. Helena estava se segurando, mas a vontade dela era chorar junto. Realmente aquela era uma amizade sem igual. Helena, Rodrigo, Carol e Augusto eram inseparáveis, desde criança. Um era pelo outro, e nem poderia ser diferente, pois o que existia ali era a verdade de um sentimento muitas vezes maior e mais duradouro que o amor. A amizade sincera é capaz de mover o mundo.