Imensa Minusculeza

Um poeta já perguntou
Quanto há de lágrima
No salgado desse mar
O vento sussurrou a resposta
Que ninguém ouviu
(Só o peixe cinza
No bico da gaivota)
Com os pés de areia
Entro no mar de imenso azul
Vejo o ponto exato
Onde Deus costurou
O oceano ao céu
Bem ali, em lugar algum
Pouco pra lá do infinito
A água fria aquece minh’alma
Eu, tão imensa minusculeza,
Sinto-me parte do mundo
Mergulho no silêncio das conchas
Rodeado pela correnteza
Dos milhões de anos passados
E dos que ainda hão de existir
Flui em mim o peso do ar
Que paira sobre as águas
Levanto-me, emerjo lavado
Na bruma que se levanta
Com o rebento das ondas
Vejo meus pais, meus avós
Meus filhos e netos vindouros
Passado e futuro juntos
Um fluxo contínuo, incessante
A bruma se esvai, dissipa-se
Finda-se como tudo que há
E tudo o que sobra
Pro bem ou pro mal
É o presente, o aqui-agora
O restante habita em mim
Como lembrança e devaneio
Ontem e hoje etéreos
Dispo-me das angústias
Nu de todo ressentimento
Olho pra frente, veja!
O laranja crepuscular do céu
Traz o aroma do porvir

Celso Garcia