O último suspiro

Havia estrelas cadentes no céu da noite em que Seu Ricardo foi atacado. O relógio já mostrava mais de duas horas da manhã. Um corpo moribundo foi tudo que restou. Aquele senhor que ali estava viveu por longos 82 anos. E, ainda assim, depois de toda sua peregrinação pessoal, encontrava-se, hoje, estendido, sem poder se mover em sua cama, no último quarto do corredor do segundo andar da única casa amarela do bairro.

Ricardo Pedrosa, nasceu na Paraíba. Dono de personalidade muito forte, nunca foi um fã acalorado das correções de rota que o destino impunha aos seus planos sempre bem traçados. Firme em sua conduta social, não era um “qualquer desviado” - como gostava de dizer. Fazia questão de estar em dia com suas obrigações financeiras e eleitorais.

Quando da década de 50, enrabichou-se por Dona Maria Eulália. Que, na época, não tinha nada de dona. Era uma bela moça. Talentosa, decidida e com uma reputação de fazer inveja às mais graduadas funcionárias dos cabarés locais. Maria faltava fazer chover quando o assunto era a satisfação nupcial de um homem. E com seu talento, aos poucos, desobrigou Ricardão de muitos dos seus decretos pessoais imutáveis.

Numa das muitas vezes em que Maria praticava suas mais desenvolvidas habilidades, Ricardo ouviu pela primeira vez um estalo ao pé do ouvido. Não sabia ao certo de que se tratava. Mas, sua consciência de homem feito, muito conhecedora de seus próprios cacoetes internos, já assinalava para um motivo que viria à tona anos mais tarde. Para ser mais preciso, 54 anos mais tarde.

A vida o levou. E tantas outras vezes foi alertado: uma coceira esquisita no ombro direito que vinha caminhando para o coração, um calafrio que apontava lá embaixo na lombar e subia estalando ou uma gota de suor gelado que lhe escorria da testa até a ponta do nariz no dia mais quente do ano. Fato é que com o passar do tempo Seu Ricardo deixou de sentir. Ou sentiu que era melhor deixar.

Entrei em seu quarto exatamente às três horas da manhã. Tinha o costume de chegar em casa após o serviço e conferir se estava tudo bem com o meu amigo. Seu solhos arregalados para o ar frio que entrava pela janela me impressionaram. Bati à porta na tentativa de despertá-lo do transe. Não se assustou. Simplesmente imerso em seus próprios pensamentos me olhou de canto de olho e disse que eu não ignorasse os recados da vida. Se ainda me sobrasse tempo (ele se esqueceu de concluir).

As primeiras horas daquela madrugada tinham sido de despertar para a realidade. Ricardo havia sido acometido do pior mal que pode acontecer a um homem: a crise do já feito. “O que está feito, está feito meu filho. A felicidade pode estar próxima de você. Na próxima esquina, na ligação que não fez ou dormindo no quarto ao lado.” - ele frisou - “Mas, não se pode voltar atrás quando já se tirou a mão da peça. Um movimento no tabuleiro é definitivo e contribui para a felicidade ou infelicidade absoluta. Pense antes de mexer sua bunda.”. Suspirou, sorriu e partiu. Foi assim que ele deixou sua marca na minha vida.

Gustavo Dias