O recomeço de um derrotado

Pisquei, hoje, na manhã ainda escura,
Após uma noite sem pregar os olhos.
Pela janela, a rua sombria estava
No aguardo dos passos daqueles que,
Desde ontem, jaziam amedrontados
Em, mais uma vez, percorrê-la.

Tudo muito diferente na atmosfera.
Estava muitíssimo frio lá fora.
Não sentia. Estava nas cobertas.
Mas a névoa ainda umedecia o vidro.
Fazendo crescer o medo de sair da cama
E caminhar procurando o novo rumo.

Desde a derrota, a ficha estava presa.
Caíra minutos antes, quando, sem querer,
Despertei do transe da ilusão que,
Nos últimos meses, abraçou-nos
E, agora, não tinha piedade alguma.
"Vire-se com suas preocupações!"

Rolei mais de dez vezes procurando.
Não tive sucesso em encontrar posição
Que me pusesse confortável a dormir.
A vida parecia querer me preparar.
Se eu dormisse, fugiria, nos sonhos,
Da realidade cruel que não perdoa.

Tantos foram os avisos. Parecia acenar
Um farol luminoso que apontava
O norte para o qual navegaríamos
Seguros do sucesso de nossa jornada.
Tolos! Não conseguimos enxergar.
A derrota veio com o mesmo salto alto.

Muito charmosa. Como devem ser
As melhores lições que a vida nos dá.
Quanta majestade há nos tropeços
Que damos ao deixar de reconhecer
A grandeza dos adversários e sua
Capacidade (que nos falta) de se curvar.

É nas maiores dificuldades da vida,
Naqueles períodos mais sombrios,
Que descobrimos a valiosa contribuição
Dada por uma bela noite de sono
Ao corpo que mais uma vez reclama.
Dá-lhe café goela abaixo. Amargo claro!

Preparado para o por vir? Talvez.
Não costumo fugir dos desafios impostos,
Pensando sempre caminhos alternativos.
Coragem para tal? Agora, me falta.
Mas hei de ter força e fé para encontrar.
São seis da manhã. Tenho de me levantar.

Gustavo Dias