Minhas velhas cartas

Dos pequenos prazeres
Que ficaram para trás
Aquele que mais sinto falta
E nem tanto tempo faz
É de receber cartas
Como as que eu recebia
Papel com cheiro de tinta
Frases com gosto de alegria
Notícias e causos que vinham
Do outro lado de lá
De gente querida e amiga
Cheia de causos pra contar
Às vezes eram de tristeza
Outrora de amor e paixão
Tinha carta sobre vida alheia
Fofoca fresca escrita à mão
Pela letra dava pra saber
Se a pessoa escrevera com pressa
Ou se tivera tempo de caprichar
Mas, isso é o que menos interessa
Tinha carta de amigo
Tinha carta da família
Tinha carta de paquera
Daquelas que o olho até brilha
Essas vinham com puro esmero
Desenhadas com elegância
Reclamando de saudades
Ou expurgando a distância
Vez ou outra vinha bronca
Uma reclamação de ciúme
E pra marcar bem o território
Borrifava na carta um perfume
Em alguma curva do caminho
Tudo isso ficou pra trás
Pena, receber carta hoje em dia
É algo que não se vê mais
Tudo é mais imediatista
Até o amor é eletrônico
Hoje nos deletam tão rápido
Acho isso um tanto irônico
Ninguém quer perder muito tempo
Nem com aqueles que mais amamos
Assim, aos poucos, a gente se afasta
E eu nem sei pra onde vamos...

Celso Garcia