Livro em Cena: "Paulo e Estevão"

Para essa seção já tradicional no blog, neste mês, escolhi homenagear um dos maiores brasileiros de todos os tempos: Chico Xavier. Um homem que sofreu, mas foi feliz, talvez como é a vida de todos nós, em maior ou menor grau. E aqui trouxe o romance que ele mesmo disse ser o mais belo e emocionante que já psicografou. Ditado pelo espírito Emanuel, conta uma história passada no século I, com toda barbárie que ainda existia. E mesmo naquela época era possível encontrar amor, carinho... Vale a pena ter na coleção e ler não apenas uma vez, mas várias, ao longo da vida. A ambientação é da época do império romano.
Boa leitura! 

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CENA: PRISÃO / INTERNA/ NOITE 

Um plano aberto nos mostra o interior da prisão de Corinto, onde estão JOCHEDEB e os filhos JEZIEL E ABGAIL. Jochedeb está cansado, olhando por um tempo pela janela gradeada. Ele fica impassível por um momento, enquanto os filhos se entreolham, andando de um lado para o outro. Jochedeb então sai da janela e vai se deitar do outro lado, num amontoado de panos velhos. Ele não olha para os filhos em nenhum momento. Jeziel e Abigail aproximam-se da janela segurando-lhe as grades, inquietos. Ambos olham o firmamento. Jeziel abraça Abgail e diz: 

Jeziel (Comovido): Abigail, lembras da nossa leitura de ontem? 
Abgail: Sim. Tenho agora a impressão de que os Escritos nos davam uma grande mensagem, pois nosso ponto de estudo foi justamente aquele em que Moisés contemplava, de longe, a terra da Promissão sem poder alcançá-la. 

Jeziel sorri satisfeito. 

Jeziel: Vejo que estamos de perfeito acordo, O céu, esta noite, oferece-nos a perspectiva de uma pátria luminosa e distante. Lá organiza Deus os triunfos da verdadeira justiça: dá paz aos tristes; conforto aos desalentados da sorte. Certamente, nossa mãe está com Deus, esperando por nós. 

Abigail fica impressionada com as palavras dele, e acentua: 

Abgail: Estás triste? Ficaste agastado com o proceder de nosso pai? 
Jeziel: De modo algum. Estamos em experiências que devem ter a melhor finalidade para a nossa redenção, porque, de outro modo, Deus não as mandaria. 
Abgail: Não nos aborreçamos com o pai . Estive pensando que, se a mamãe estivesse conosco, ele não chegaria a reclamações de tão tristes conseqüências. Nós não temos aquele poder de persuasão com que ela, carinhosa sempre, iluminava a nossa casa. Lembras? Sempre nos ensinou que os filhos de Deus devem estar prontos para a execução das divinas vontades. Os profetas, por sua vez, nos esclarecem que os homens são varas no campo da criação. O bem deve ser a flor e o fruto que o Céu nos pede. 

Ela pára de falar, e olha para o céu por um momento. E então continua: 

Abgail: Entretanto, sempre desejei fazer algum bem, sem jamais o conseguir. Quando nossa vizinha enviuvou, quis auxiliá-la com dinheiro, mas não o possuia; sempre que me surge uma oportunidade de abrir as mãos, tenho-as pobres e vazias. Então, agora, penso que foi útil a nossa prisão. Não será uma felicidade, neste mundo, podermos sofrer alguma coisa por amor de Deus? Quem nada tem, inda possui o coração para dar. E estou convicta de que o Céu nos abençoará pela nossa resolução em servir com alegria. 

Jeziel a abraça e diz: 

Jeziel: Deus te abençoe pelo entendimento das suas leis, irmãzinha! 
Abgail: Por que será que os filhos de nossa raça são perseguidos em toda parte, provando injustiça e sofrimentos? 
Jeziel: Suponho que Deus o permite a exemplo do pai amoroso que, para educar os filhos mais jovens e ignorantes, toma por base os filhos mais experientes. Enquanto os outros povos amortecem forças na dominação pela espada, ou nos prazeres condenáveis, nosso testemunho ao Altíssimo, pelas dores e amarguras, multiplica em nosso espírito a capacidade de resistência, ao mesmo tempo que os outros homens aprendem a considerar, com o nosso esforço, as verdades religiosas. 

Ele olha para o horizonte e continua: 

Jeziel: Mas eu creio no Messias Redentor, que virá esclarecer todas as coisas. Os profetas nos afirmam que os homens não o compreenderão. Quem sabe, Abigail, estará ele no mundo, sem o sabermos? 

Ela fica pensativa por uns instantes: 

Abgail: E já que falamos em sofrimentos, como deveremos esperar o dia de amanhã? Prevejo grandes contrariedades no interrogatório e, afinal, que farão os juízes de nosso pai e de nós próprios? 
Jeziel: Não deveremos aguardar senão desgostos e decepções, mas não esqueçamos a oportunidade de obedecer a Deus. Nas desditas extremas, Job teve a boa lembrança de que, se o Criador nos dá os bens para nossa alegria, pode enviar-nos igualmente os dissabores para nosso proveito. Se o papai for acusado, direi que fui eu o autor do delito. 
Abgail (Ansiosa): E se te flagelarem por isso? 
Jeziel: Vou me entregar ao flagício com a paz da consciência. Se estiveres junto de mim, nesse instante, cantarás comigo a prece dos que se encontram em aflição. 
Abgail: E se te matarem, Jeziel? 
Jeziel: Pediremos a Deus que nos proteja. 

Abgail abraça forte o irmão. Ele retribui e diz: 

Jeziel: Se eu morrer, Abigail, hás de prometer-me seguir à risca aqueles conselhos da mamãe, para que tivéssemos a vida sem mácula, neste mundo. Lembra de Deus e da nossa vida de trabalho santificador, e nunca ouvirás a voz das tentações que arrastam as criaturas à queda nos abismos do caminho. Recordas-te das últimas observações da mamãe no leito da morte? 
Abgail: Se recordo. Tenho a impressão de ouvir ainda as suas últimas palavras: “e vocês, meus filhos, amarão a Deus acima de tudo, de todo o coração e de todo o entendimento”. 
Jeziel: Feliz de ti que não esqueceste. Agora precisas descansar. 

Abgail luta em silêncio, abraçado fortemente o irmão. Jeziel a segura pelos braços e diz: 

Jeziel: Descansa, não te impressiones com a situação, nosso destino pertence a Deus. 

Abgail se aquieta, e obedece Jeziel, saindo de perto dele e indo deitar no chão. Ele volta a olhar pela janela de grades, um pouco mais nervoso.