As belezas pela internet: "Lua"

Mais uma vez este blog abre espaço para a arte literária de um grande amigo. Enrique Coimbra não cansa de apresentar textos cada vez mais interessantes, e não há como não dividi-los com vocês. Eu já o convidei a juntar-se ao time do Literatura Exposta, mas isso ainda não foi possível. Este escritor está alçando vôos cada vez mais incríveis, e, no momento, não dá para se dedicar semanalmente às publicações. Mas, como já o falei, as portas do blog estão e ficarão abertas sempre não apenas ao amigo, muito querido, que ele é, mas ao talento jovem que o mercado literário do Brasil precisa e aguarda.


Lua
Por Enrique Coimbra

Gostaria de me perguntar menos vezes quantas pessoas estão olhando essa mesma lua cheia de sadismo e ironia. Se não fosse por ela, sufocaríamos na escuridão plena da praça de postes queimados e brinquedos quebrados. Nós. Em noites assim, gosto de me perguntar quem sou. Quem sou eu diante de tanta beleza. Não existo em lugar nenhum a não ser nas memórias de um território abandonado, entre as praias que não são bacanas, poluídas de esgoto, de sonhos de liberdade afundados na lama podre. Não subo um morro para abrir o portão de casa, mas desenrolo um carretel de decepções abrigadas em barracos de tijolo e cimento quando despisto meus infortúnios existenciais e piso sobre o barro cru que nós gostamos de apelidar de rua. Todas essas frustrações de quem nunca vai morar depois da Grota Funda ou passear entre as pedras do Arpoador. Ele assopra um espectro branco pelas narinas e encobre a lua, antes livre das nuvens, livre das tempestades. Seu brilho, o dela, é um mero reflexo. Só uma parte está cintilando para nós. Em noites assim, gosto de dizer que a Lua é um espelho. Através dela, conheço uma cidade perfeita, erguida por meus sonhos e desejos, alguns que já deixei pelo caminho junto com a garrafa plástica daquele vinho barato que resolvemos comprar pra matar o tempo. Nos matar um pouco. Aquele reflexo sorridente nos esconde num giro horizontal de 180°. Somos a sombra, o lado oculto. A cidade em que eu vivo não é praia, Sol e futebol. Ela é Lua. Mística, intrínseca, misteriosa, cheia de segredos e desagrados cheirando àquela mistura de bafo de cerveja com carne mal-passada de uma tarde de sábado. Ela gira e faz enjoar. Mas ela gira e nunca deixa a luz d’O Faraó brilhar sobre nós. A cidade é só um reflexo. Nós somos pura escuridão. Pra não nos encarar quando cruzarmos a rua, você vai se fazer de cego. Normal. Eu, por exemplo, já não sei quem sou. Mas é aqui que eu vivo.