Sentir com a alma... E ouvir o coração

As noites frias do inverno são ótimas para deixar que minha imaginação me leve. Invariavelmente, nestes tempos frios, ela sempre me leva um pouquinho mais pra perto daquela que move meus pensamentos. Faz-me menos triste pensar que posso quebrar a mais temível barreira que as circunstâncias da vida faz surgir diante de nós. Na minha cabeça eu sou como um rei guerreiro, que não teme a luta, e consegue alcançar o topo da mais alta torre para salvar a indefesa mocinha. 
Ainda que seja apenas um devaneio desta mente sonhadora que tenho, sei que, naquele momento, ganho todas as forças que preciso para acordar no outro dia e seguir procurando uma trilha que me levará para mais perto do meu melhor pedaço, que, por uma anedota dos céus, acabou nascendo e crescendo longe, quase que para que não pudéssemos nos encontrar. É quase um “vamos ver se são capazes mesmo de encontrar o caminho que unirá seus corações”. 
E passamos grande parte de nosso tempo procurando. Nossa, e são tantas as desilusões, as decepções, os encontros com o que não foi feito para nós. Muitos até desistem. Preferem parar de procurar a felicidade de um grande amor para não mais sofrer. Escolher um caminho não é simples. Muitas estradas são estranhas, erradas, imundas até. Mas desistir não. Para mim, não. Não me é permitido desistir de ser feliz. 
Ah, a vida é feita de muitos caminhos. Ouso dizer que tantos quantos seja o número das estrelas que fazem o espetáculo noturno cotidiano. Mesmo que nem olhemos para cima, e nem pensemos contemplá-las, elas estão lá, prontas para encher nossos olhos e nos deixar maravilhados. Assim é a nossa eterna batalha contra a distância. Se ela serve para dificultar os encontros de corações, existe justamente para que somente as verdadeiras almas gêmeas possam construir a estrada que as ligará eternamente. 
Podemos ser grandes pessoas. Plenamente inspirados em nossos deveres racionais. Isso nos trás prestígio e valor. Num mundo frio e calculista, há quem pense ser esse o segredo da felicidade. Mas essas pessoas estão acostumadas apenas e falar a língua seca do corpo. Agem quase que numa repetição sem fim de ações, movimentos e pensamentos. Técnicos especializados em regrinhas básicas de convivência, com noção de espaço e campo de ação limitados pelo horizonte imposto pelo olhar físico. 
A diferença para os que perseguem o amor é que estes últimos conseguem sentir com a alma. Isso por si só já os faz sofredores por natureza, pois a racionalidade é algo muito simples. As coisas seguem um modelo e pronto. Quando se opta pelo coração, há que se ter a plena consciência de que se está mergulhando em uma montanha-russa de emoções. Nesse universo, ninguém é igual, e o bom mesmo é descobrir o outro, entender suas manias e seu jeito de ser. Sem dúvidas, uma arte. 
Alguns dizem ser muito difícil. Mesmo os românticos por natureza. Levar um não, ouvir um “eu sei que você me daria o mundo, mas não posso pedir isso a você” é um golpe quase mortal. Mas se fosse fácil nem tinha graça. A minha alegria não está em várias conquistas, mas como já dizia o poeta, na mesma conquista várias vezes, a cada novo raiar do sol. Pois, para mim, se é preciso viver com os pés na realidade, também é necessário entender que a felicidade só existe se nos enxergarmos capazes de sentir com a alma, e escutar o que fala o coração.

Leonardo Távora