A garota da praça

Pra quem olha assim, friamente, parece uma distância curta. Mas, eu sei que não é bem assim, há que se calcular os potenciais riscos existentes no trajeto, as eventuais chances de fracasso e, principalmente, o medo que toma conta desse meu coração cansado de apanhar.
É bem verdade, nem precisa dizer, que quem não arrisca não petisca. Ou como diriam os mais eufemísticos, que quem não chora não mama. Ressalto, porém, em minha devida defesa, que também é verdade que gato escaldado tem medo de água fria e que, não obstante, macaco velho não põe a mão em cumbuca. Eu aqui, perdido em meus devaneios, tentando explicar meus fracassos amorosos com o uso de provérbios e metáforas, finalmente me dou conta que o tempo passa e joga contra mim.
É que eu queria me aproximar com uma frase inteligente, ou uma citação de algum filme ou livro ou daquela música do Vinícius, porque aí você, ao menos, logo de cara, me acharia culto, quem sabe. Fato é que pensei em nada, até agora, que superasse em efetividade o famoso Oi, tudo bem? Quem diz oi tudo bem hoje em dia? Coisa em desuso, esse oi tudo bem. “Oi tudo bem uma ova”, você iria dizer, com toda razão. É por isso que olho pro chão como quem tivesse perdido ali algo importante, como a coragem ou o tato com as mulheres (não, este definitivamente eu não perdi, nunca o tive). Eis aí meu ponto fraco e fator máximo de minha solidão, a dificuldade em chegar até alguém como você, bonita e segura de si, tão completa por si só, uma mulher independente, daquelas que honram suas antepassadas que queimaram sutiãs em praça pública. Vai precisar de mim pra quê? Pra abrir o pote de azeitonas? Pra matar baratas com chinelo de dedo? Não.
Você não vai me dar bola. Por que daria, se até hoje ninguém o fez. Claro, talvez alguma tivesse feito caso eu houvesse dado o primeiro passo. Justo eu, dar o primeiro passo? Parece brincadeira! Por que não você? Afinal, hoje em dia homens e mulheres têm direitos iguais, então por que tem que ser eu a dizer a primeira frase, justo a primeira, a mais sofrida de todas. Se a primeira frase vai embora, lá se vai junto a boa primeira impressão, aquela que, dizem, é a que fica. Não, não vou até aí, você que venha até aqui, pronto, está decidido. Eu faço charme e você faz o flerte, é melhor pra todo mundo, ou pelo menos é o melhor pra mim.
Segundos depois me dou conta que não, você não virá até mim, terei eu que chegar em você. Se não tem frase inteligente, que seja uma burra, mesmo. Daquelas como vai chover, está calor aqui, está frio acolá. Mas, primeiro, eu que me decida se vale o que sinto por dentro ou por fora, se está quente ou frio.
Não fosse eu tão tapado, tão zero à esquerda nessa coisa de amor, poderia jurar que te vi me olhando umas duas, talvez três vezes. Entenda, não sei ler direito os olhos das pessoas, ainda mais quando são lindos como os seus, não sei se quis me dizer alguma coisa. Então, faz assim, pra facilitar, dá um sinal mais claro, algo com a mão ou, melhor, fala comigo. Pra não deixar dúvidas. É que eu ia odiar ir até aí e ver que não foi sinal nenhum, que me aloprei ao acreditar que você me daria uma chance. Eu, macaco velho que sou, não ponho a mão em cumbuca.
O tempo passa, joga contra o meu querer. E eu, que quero e não posso, te vejo levantar, me olhar uma última vez e partir. Sabe lá se te vejo de novo um dia desses, sabe lá se era pra ser o que não foi. Tudo que sei é que não foi porque não fui. A essas horas, num universo paralelo qualquer, nós dois estamos juntos.
Taí, odeio encontrar uma frase inteligente quando ela já não me adianta de nada...

Celso Garcia