Tudo que vai

O silêncio das 5h da manhã, a neblina completamente baixa, o vidros do carro totalmente embaçados. Andar em um bairro estranho e não sentir medo disso.
Fazer o mesmo trajeto várias e várias vezes, sempre de mãos dadas. 
Esperar um pelo outro em algum ponto estranho.
Provocar pessoas, se abraçar no mercado, andar como crianças.
Encontros matinais para um beijinho, encontros na padaria.
Estourar contas, não ter uma alimentação saudável, dormir na cama dos meus pais, beber em plena terça feira.
Fugir para o outro lado do rio, passar fome, gastar o dinheiro que deveria ser para pagar as contas com pastéis. 
Passar calor, muito calor! Tomar banho de mangueira, colocar muitas pessoas em um box minúsculo.
Três semanas na praia, ser os únicos a comprar pão, gastar dinheiro com picolé e balas.
Sair do carro tropeçando nas próprias pernas e gritar, beber bebida de pobre, de rico. 
Chorar em formaturas, ficar feliz um pelo outro.
Me trancar no seu quarto para um beijo, não deixar você sair até que eu ganhasse o que queria.
Resolver problemas debaixo de cobertores que fediam a cigarro.
Dar beijos na piscina, dar beijos em camas estranhas, dar beijos no seu carro, no carro dos meus pais, na sala, no meu quarto, na escada, beijar sempre que pudesse e até quando fosse proibido.
Ir em festas, baladas, me levar na primeira balada da minha vida, conseguir entrada free.
Emprestar camisetas, dormir bravo um com o outro, quase dormir no cinema, ter marcas pelo corpo. 
Roubar internet do vizinho, ficar uma madrugada inteira na sacada, não beber, gritar enquanto andamos em alta velocidade, forjar brigas.
Escrever textos, brigar, falar o que pensa, ser sua e você ser meu. 
Inventar namoros, inventar cartas, histórias.
Bailes de gala, sentar na beira da praia, conversar sobre planos, sonhar era nossa lei.
Ler poesias, criar um livro, te chamar para fazer qualquer fora, almoçar fora, ter as vistas mais lindas da nossa região. 
Passar viradas de ano em cidades diferentes, ter muita ressaca, ficar vermelhos depois do primeiro beijo. 
Conhecer lugares novos, ruas novas, andar de ônibus, fazer compras do mês.
Marcar médicos, se preocupar com a saúde, ir com o outro em consultas bizarras, comprar detergente, ensinar a limpar a pia.
Você disse que não deveríamos deixar ser algo banal, e mesmo a cada encontro nossos lábios no fim sempre se encontrando, não era banal; minhas mãos suavam frio e eu sempre terminava sorrindo.
Ao que tudo indica, caminhamos para o fim, o nosso fim; aquele que eu tanto atrasei, que eu tanto pedi para que não chegasse.
Eu gostaria de não pensar em argumentos, eu só queria voltar no tempo... A cada uma das nossas tardes, a cada madrugada, a cada segundo que parecia ser pra sempre.
Eu sei que parece tanto, mas tínhamos muito mais... Coisas que deveriam ser reais, instantes!
Sim, eu planejo demais; eu cresci esperando planos, datas, e por conta disso, isso acabou se tornando um ritual, algo santo para mim.
Nunca imaginei digitar essas palavras. Terminamos no número da perfeição. 
O "enfim" se tornou o "fim".
Eu queria encontrar as palavras perfeitas para as últimas linhas, eu queria poder dizer como seus olhos sempre brilhavam quando ouvias algo bom, como eu sempre Amei seus cabelos, como eu sempre te Amei. Como a cada sumiço eu aguardava um novo regresso. Como era bom todos os perdões trocados, como cada abraço parecia ser o primeiro... Eu poderia ficar aqui, por horas, escrevendo a respeito disso,
de nós dois, mas eu não posso mais, eu não devo, isso é passado, e chegou a hora de caminhar para frente.

"Eu repetia tudo que você me dizia como um mantra, você era o meu Deus. - Larissa G."

Andresa Alvez