O incerto futuro preocupa Madá

Em seu trailler, Madá estava pensativa. O futuro de seus filhos a preocupava. Embora o circo não estivesse com as finanças ruins – muito por causa do seu pulso firme -, também não era algo que garantisse o futuro de ninguém. Tudo bem para quem desejou viver daquilo, como ela e Martinho, quando se conheceram. Mas Maria Alice, Ricardo e Luna só viveram ali. Não tiveram outras experiências na vida.
Quando se viram pela primeira vez, Martinho parecia um príncipe encantado para Madá. Ele passou pela cidade dela com sua trupe. Naquele tempo era um jovem muito galanteador. Com a maquiagem de mágico, com os olhos delineados para atrair o público, num magnetismo empolgante, ele conquistou profundamente o coração dela, que sonhava ser apenas uma funcionária pública com uma carreira tranquila, como havia imaginado ao passar no concurso para a prefeitura da cidade. Martinho virou sua cabeça, e transformou sua vida. Mas ela quis isso.
Já os meninos, não. Maria Alice certamente seguiria uma carreira artística, porque tinha tudo para isso. Talento de sobra e vontade – quase uma necessidade – e estar nos palcos, quaisquer que sejam os papeis apresentados em cima dele. Mas Ricardo e Luna não tinham isso. Ele aprendeu os segredos da mágica com o pai, mas nunca viveu nada fora dali. Nunca experimentou o sabor da vida além do espaço delimitado do circo. Um menino ainda. 
Enquanto Madá se entrevia com seus pensamentos, Martinho chegou ao trailler para seu merecido descanso depois de um dia cheio. Ele estava exausto, mas ainda tinha forças para reparar sua mulher com um olhar distante, muito além do horizonte da janelinha daquele carro. 
- Não vem deitar, Madá?

Ela não respondeu. Estava realmente fora desse mundo. Ele então resolveu usar suas habilidades para trazê-la de volta à vida. Claro, tudo uma grande palhaçada, como não poderia deixar de ser no espírito dele. Martinho, então, pôs as mãos na boca, imitando um rádio velho. E não apenas isso, ele se escondeu atrás de um radinho de pilhas.
- (Chiado) Atenção dona Madalena. Essa é a rádio alvorada dos seus sonhos, te chamando para a terra. Vamos sair desse mundo e voltar para o real? (Chiado novamente)
- Martinho, que bobo!
- Ué. Eu mexi com você e nada. Estava tão longe, que essa foi a única maneira de te trazer de volta sem dar um susto em você. 
- Meu lindo! Já disse que te amo hoje?
- Acho que apenas quando acordamos. O que dá um dia inteiro de prazo, e me deixa com saudades de ouvir.
- Gente, mas como é carente esse meu marido.
- Não. Nada de carente. Eu chamaria isso de amor!
- Ah, tá certo.
- Mas me diz. O que te fez ficar tão aérea assim?
- Eu estava pensando nos meninos. Me preocupo com Ricardo e Luna. Maria Alice é mais independente. Sabe se virar melhor. Mas e eles? Não tem experiência alguma fora desse circo. Não acho isso bom.
- Eles vão se o que a vida lhes disser. No momento certo cada um vai saber qual caminho seguir. Fica preocupada não. Tudo tem seu momento, meu amor.
- Eu li nas cartas sobre a Maria Alice que ela que a vida dela não será fácil. 
- Ah, não! Agora você tá parecendo essas videntes de esquina, que falam bem amplamente as coisas. A vida de ninguém é fácil, querida. Ela tá ficando adulta. É agora que tudo vai começar a acontecer pra ela. E isso é difícil mesmo.
- Mas eu não falo de vida geral. É coisa de coração. 
- Hã... E quem, normalmente, não tem problemas com o coração?
- Martinho, não é tão simples assim. E não se faça de desentendido. 
- Não estou me fazendo de nada, meu amor. Só que você está querendo manter nossa menina numa redoma de vidro, sofrendo com algo que é natural pra todo mundo. A MaLi só sofrer se viver. Assim como se vai sorrir se enfrentar a vida de frente, de peito aberto. Do contrário ela até existe, mas não vive, não pulsa.
- Você e seu jeito de fazer tudo ficar mais fácil, né!
- Mas a vida é fácil, meu bem. Nós é que complicamos pra dar um saborzinho. 

E Martinho tinha razão. Não adianta querer se proteger tanto do mundo. Assim, corre-se o risco de não viver, e daí não se ter história para contar. A vida é feita de alegrias e dissabores. Não há como fugir disso. Até porque são essas experiências que transformam as pessoas em seres melhores, mais maduros e mais sensatos. Tudo bem que exista quem não aprenda assim, e teremos que conviver com isso da mesma forma. Mas é assim que a vida se processa.

Leonardo Távora