Sonho de uma noite de março

Acordei, mas não era dia.
O luar pela janela entrava.
No meu peito a saudade habitava.

Tentei levantar sem sucesso.
Caducando, cambaleou meu espírito.
Procurei Deus no breu incógnito.

Topei com o dedinho no pé da cama.
Atestei minha ainda pobre vida.
Praguejei a cama, Deus e a ferida.

Tirei a água do joelho.
Perguntei se tinha como levar a dor.
Descobri que a dor é esposa do amor.

Tomei um copo d'água e voltei.
Limpei minha amargura com um gole só.
Deus começou a chorar de dó.

Tentei dormir. Não consegui.
O barulho era de um mundo que acabava.
Como trilha a chuva que Deus mandara.

No meu interior a briga me impressionou.
O amor não queria a dor como mulher.
Em briga de marido e mulher, eu que não meto colher.

Adormeci.

Gustavo Dias