Menina do passado

Eu lembro quando você dizia que iríamos nos casar... Era engraçado ouvir isso de duas garotas. 
E eu já posso até imaginar o que você leitor está pensando diante dessa frase.
O fato era que entre nós duas não existia nenhum desejo sexual por trás de palavras como essa, a única coisa que queríamos dizer com isso era “Te Amo o suficiente para passar a vida toda do teu lado.”
Éramos as titias do grupo, tínhamos a mesma idade, os mesmos gostos e medos.
Eu me sentia feliz por ter alguém como ela ao meu lado.Passávamos tardes juntas, fazíamos planos para o futuro. Eu sentia uma falta imensurável dela, e ela a minha.
Estranho falar disso tudo sabendo que não vai voltar mais.
Estranho porque eu dei toda minha paciência, minha força. Dei meus conselhos, meu colo e cada um dos meus abraços. Esperei achando que essa “fase dela” iria passar. Que engano...
A pessoa que vejo nas fotos de hoje não é a mesma que eu conheci, não é a mesma que eu cuidei.
Aquela que eu conheci era uma garota. Uma mulher escondida na alma de uma menina.
Eu conheci aquela com quem eu vivi duas semanas, e no meio delas, enquanto andávamos por uma ponte estreita numa tarde fria me disse: - Você sabe o que está acontecendo aqui, não sabe? - E depois de uma conversa que fez meu estômago se deteriorar, me disse: - Mas eu tô do teu lado, e vou ficar aqui, vou cuidar de ti. -
Ela era a menina do sorriso mais lindo que eu já havia visto, não me importando como esse fosse.
Era a menina que ouviu minhas lágrimas e foi cumplice de cada uma delas, que trocou blusas comigo, que entendeu quando eu precisei ficar sozinha, que não largou da minha mão.
Ela era a menina que tinha sardas no nariz e pequenos sinais no rosto que eu tinha completa certeza que faziam dela uma mulher maravilhosa.
Ela era a menina com inseguranças, com medo de Amar, com expressões engraçadas.
A menina que me contava tudo, que sempre me perguntava tudo, como se eu fosse a segunda mãe.
Essa era a menina que eu conheci e pela qual eu sinto tanta falta.
Não queria que você voltasse. Não como estás agora.
Talvez essa seja você “na fase adulta”. Talvez você prefira isso, essa vida repleta de baladas, onde no final da noite, você sempre acaba se sentindo um pouco vazia.
Talvez você goste disso, de uma vida sem nada par preencher ou completar, sem alguém pra ir te visitar numa quarta feira de chuva, pra ir com você no shopping andar na loja de brinquedos.
Talvez você goste do que se tornou.
Estranho é saber que você gosta de viver assim. Que você parece estar bem sem mim.
E eu lamento isso, muito. Porém, não vou fazer nada diante disso.
Sendo assim, é melhor ficar distante.
A menina das manhãs ensolaradas de janeiro não vai voltar mais.
 
Andresa Alvez