Mestres da escrita: "Artur Azevedo"

É com alegria que apresento este mês um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro: O genial Artur Azevedo. Dono de uma criatividade ímpar, e um humor muito peculiar em suas obras, ele se caracteriza pela agilidade do texto, algo bastante estranho para a época. Aqui, vamos ver um outros lado desse grande escritor. Não uma peça, mas um de seus contos mais interessantes. Notem como as palavras fluem no texto. Certamente este é um mestre cuja obra merece constar de nossas bibliotecas particulares. 
Boa leitura!

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A Marcelina 
Por Artur Azevedo 


Naquele tempo (não há necessidade de precisar a época) era o doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigatórias da Rua do Ouvidor. Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, — mas como janota – força é confessá-lo – não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro. 
Rapaz? Rapaz, sim: o doutor Pires de Aguiar pertencia a essa privilegiada classe de solteirões que se conservam rapazes durante trinta anos. 
Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente: — Orço pelos quarenta, — e durante muito tempo não deu outra resposta. Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinqüenta, e bem puxados. As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco. 
Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro. Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz. Não fazia questão de espírito nem de beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público. Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Cythera dos bastidores. 
Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela; desde que esta começava a ofuscar-se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra. Como era inteligente e generoso – muito mais generosos que inteligente, — nunca ficava mal com o astro caído. 
Algumas vezes o rompimento era provocado por elas – pelas de mais espírito – que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidoso das suas roupas. 

II 

No tempo em que se passou a ação deste ligeiro conto, a nova conquista do doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas da réclame, e cuja estréia num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente. 
Uma hora antes de começar o espetáculo de estréia, entrou o advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba capa de pelúcia. Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores. 
Ela ficou encantadíssima, e agradeceu com beijos quentes e sonoros a dedicada solicitude do amante. 
Que belo tapete felpudo! que bonitos quadros! que papel bem escolhido! que delicioso divã! que magnífico espelho de três faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro! e que profusão de perfumarias! e que precioso serviço detoilette!… 
Nada faltava também sobre a mesinha da maquilagem, intensamente iluminada por dois bicos de gás. 
O doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos; não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários ao camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo. 
Dali a nada ouviu-se um – Dá licença? — e o diretor de cena entrou no camarim acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada. 
– Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira. 

A estrela não conteve um gesto de despeito. O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações. 
– É doente? perguntou Clorinda à costureira. 
– Não, senhora. Tive uma doença grave, mas agora estou boa. Saí há dois dias da Santa Casa. 

Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, resfestelando-se no divã: 
– Ma chère, il faut se contenter de cette habilleuse; nous ne sommes pas en Europe. 

Ele impingiu a frase em francês, para que não a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: 
— Oui. 

Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se dizendo: — Vamos a isto! 
E dirigindo-se à costureira: 
– Sente-se. Porque está de pé? 

A pobre mulher sentou-se a medo, como receiosa de macular a palhinha dourada da cadeira com o seu miserável vestido de chita. 
– Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito? Perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho. 
– Deveras? 
– Ao que me parece, você tem sido um gajo! 

O doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível. Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade a dentro como uma grã-cruz. 
– Com que então a sua especialidade são as atrizes? 
– Sou doido pelo teatro. 
– E há quanto tempo dura essa doidice? 
– Há muito tempo. Estou velho, bem vê. Orço pelos quarenta. 
– Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco. 
– São os seus olhos. 
– Qual foi a sua primeira paixão no teatro? 
– Ah, isso… 

O advogado levantou o braço e estalou os dedos. 
– … isso é pré-histórico; perde-se na noite dos tempos. 
– Como se chamava essa colega? 
– Chamava-se Marcelina. 
– Que fim levou? 

Ele encolheu os ombros. 
– Sei lá! provavelmente morreu. Nunca mais ouvi falar dela. Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados: ninguém lhes vê os cadáveres. 
– Gostou dela? 

Foi talvez a paixão mais séria da minha vida. 
– Nunca mais a procurou? 
– Para que? 
– Tinha talento? 
– Talento? Não. Tinha habilidade. 

E depois de uma pausa: 
– Tinha habilidade e era muito boa rapariga. 
– Brasileira? 
– Sim. Representava ingênuas em dramalhões de capa e espada, ali, no São Pedro de Alcântara. Um dia – eu já a tinha deixado – um dia patearam-na ppor motivos que nada tinham que ver com a arte dramática; ela desgostou-se; andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu. Requiescat in pace! 

Entrou o cabeleireiro. Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos da Marcelina; depois falou de outras atrizes, desfiando um interminável rosário das suas mancebias. 
Clorinda, a costureira e o cabeleireiro, ouviam sem dizer palavra. 
Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se: 
– Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim? Vou vestir-me. 
– Até logo, disse o advogado. O seu penteado ficou esplêndido! Vou aplaudi-la. Bonne chance! 

Deu-lhe um beijo – na testa para não desmanchar a pintura, — e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou. 

III 

Minutos depois, Clorinda estava completamente nua. 
– A senhora é muito bem feita de corpo, disse-lhe num tom adultório, a costureira, enfiando-lhe pela cabeça uma camisa de seda. 
– Acha? perguntou desdenhosamente a atriz. 
– Ah! eu também já fui bem feita de corpo, mas… não tive juízo: fiei-me demais nos homens. Se quer aceitar um conselho, filha, preste mais atenção à sua arte do que a todos esses … gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais. Só assim a senhora evitará o hospital e a miséria. 
– Ora esta! exclamou Clorinda. Quem é você mulher, para me falar assim? 
– Eu sou … a Marcelina. 

Em: Contos fora de moda, originalmente publicado em 1894. 

Biografia do mestre: 
Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (São Luís, 7 de julho de 1855 - Rio de Janeiro, 22 de outubro de 1908) foi um dramaturgo, poeta, contista e jornalista brasileiro.
Em 1871 escreveu uma série de poemas satíricos sobre as pessoas de São Luís, perdendo o emprego de amanuense (copista de textos à mão). 
Seguiu para o Rio (1873), onde foi tradutor de folhetins e revisor de "A Reforma", tornando-se conhecido por seus versos humorísticos. Escrevendo para o teatro , alcançou enorme sucesso com as peças "Véspera de Reis" e "A Capital Federal". Fundou a revista "Vida Moderna", onde suas crônicas eram muito populares. 
Artur de Azevedo, prosseguindo a obra de Martins Pena, consolidou a comédia de costumes brasileira, sendo no país o principal autor do Teatro de revista, em sua primeira fase. Sua atividade jornalística foi intensa, devendo-se a ele a publicação de uma série de revistas, especializadas, além da fundação de alguns jornais cariocas. 
Escreveu cerca de duzentas peças para teatro e tentou fazer surgir o teatro nacional, incentivando a encenação de obras brasileiras. Como diretor do Teatro João Caetano, no Rio, encenou quinze originais brasileiros em menos de três meses.