Livro em Cena: "Tieta do Agreste"

A passagem desse mês é do livro “Tieta do Agreste”, do inesquecível Jorge Amado. Visitar as obras de Amado é sempre uma viagem por tipos incríveis que ele criou tendo o belo nordeste do Brasil como cenário. Mas já digo logo que esta é uma adaptação exclusivamente do livro, e não tem conexão com a novela da TV Globo, “Tieta”, escrita pelo Aguinaldo Silva, que é um mestre em dar luz própria aos personagens, seja os que ele cria, seja em adaptações de livros. 
Os personagens, nessa passagem, foram defendidos na novela por Betty Faria (Tieta), Flávio Galvão (Comandante Dário), Claudia Alencar (Laura) e Cássio Gabus Mendes (Ricardo). Pra quem assistiu a novela, ler o livro é um ótimo momento de revê-la, pelo caminho da imaginação, encontrando-se novamente inclusive com a impagável Perpétua, da Joanna Fomm. 
Boa leitura!

SEQ. – CANOA DE DÁRIO / DIA / EXTERNA 

Tieta está no meio da canoa, lendo uma crônica. 
Ricardo está com ao lado dela, admirando a paisagem do Agreste. 
Comandante Dário está ao leme, olhando para ela, esperando que termine a leitura. 
Laura está perto dele, mas um pouco à sua frente, entretida, e não percebe que Dário olha para Tieta. 
Tieta termina de ler, levanta-se, vai na direção de Dário, que tenta disfarçar que estava olhando para ela, e entrega os papéis com a crônica para ele. 

Tieta: Há um dinheirão a ganhar nessa história, comandante! 
Dário: Dinheirão a ganhar? 
Tieta: Não foi o senhor mesmo que disse que essas terras do coqueiral não têm dono? 
Dário: Não é bem assim. Donos eles tem. Só que ninguém sabe direito quem são. O Modesto Pires comprou uma parte do pessoal do povoado, e só disse que não comprou mais por causa da confusão. 
Tieta: Tô entendendo. 
Dário: O Coqueiral tem não sei quantos donos. O que é o mesmo que não ter nenhum. 
Tieta: Pois então a gente compra esses terrenos pra vender ao pessoal da companhia. Compra por um, vende por dez. (Pausa) Por dez ou vinte. Felipe era craque nessas operações. 
Dário: Deus me livre, Tieta. Não quero ganhar dinheiro graças à custa da desgraça de minha terra. 
Tieta: Comandante, se a gente não pode impedir e não se tem jeito a dar, pelo menos ganha um dinheirinho. Quando Ascânio começou com essa história de turismo, pensei em comprar terrenos por aqui. 
Dário: Primeiro, eu não tenho com que comprar um gato morto; Segundo, vai ser a maior dificuldade localizar os donos; Terceiro (Pausa, olhando sério pra Tieta), Não vou cruzar os braços, Tieta. Vou partir pra briga. Sou o homem mais pacato do mundo, mas essa gente não vai poluir o Agreste sem meu protesto. Isso não! 

Ricardo, que está distraído, toma um susto com a fala de Dário. 
Laura também olha para o marido, mas prefere não intervir na conversa dele com Tieta. 

Dário: Vou brigar, e quando eu brigo é de verdade. 
Tieta (séria): E vale a pena, comandante? 
Laura: É o que eu também me pergunto. 
Dário: Mesmo que não sirva de nada, não vou deixar que destruam Mangue Seco sem que eu proteste. 

Todos se entreolham. 
Dário percebe o desconforto de todos, e abaixa o tom de voz. 

Dário: Olhe, Tieta, Pense no que vou lhe dizer. Se eu abrir a boca no Agreste pra protestar não vou conseguir nada. É a pura verdade... 
Tieta: Pois então... 
Dário: Vão me ouvir porque me respeitam. Alguns vão ficar de acordo, mas ninguém vai fazer nada. Acontece o mesmo com o Barbozinha. Não vai adiantar ele escrever tanta poesia. Talvez A Tarde publique algum poema, mas qual a serventia? (Pausa) Nenhuma. É capaz até que venham se divertir à custa dele, chamando de vira-casaca. Você sabe como é a língua do povo. 
Tieta: Coitado do Barbozinha! Está muito magoado. Quando soube da crônica, ficou feito doido, disse que estava desmoralizado... Me deu um trabalho... 
Dário: foi atrás do Ascânio. Aí está o resultado. 
Tieta: Ascânio não tem culpa. Ele também não sabia nada dessa tal... Como é mesmo o nome? 
Dário: Brastânio. 
Tieta: Falaram em progresso, mandaram brindes... Ascânio vibrou. Isso podia acontecer com qualquer um, oras. 
Dário: Não nego. Ascânio meteu na cabeça que tem que reerguer o município, repetir a administração de seu avô, o melhor intendente da nossa Sant’Ana do Agreste, lá no tempo da carochinha. É só ouvir falar de progresso que Ascânio fica doido. E com isso pode botar a perder tudo quanto nós temos: Nosso clima, a beleza, a paz... Uma coisa eu lhe digo, Tieta: O meu voto pra prefeito ele não terá. 
Tieta: Não diga isso, comandante. Ascânio, com o amor que tem à nossa Agreste pode fazer muita coisa boa... 
Dário: E muita coisa ruim. Antes eu não duvidava da honradez do Ascânio, mas ele praticou um ato muito feio. 
Tieta: E qual foi? 
Dário: Ele sabia dos planos dessa gente. Viu as plantas, os projetos... Estava a par de tudo e se calou. Ficou tapeando todo mundo com essa história de turismo. 
Tieta: O coitado não sabia do perigo da tal indústria. Parece que é o fim, né?Pelo que diz o jornal... 
Dário: Se é. Não pode haver nada pior. Mas, tudo bem... Vamos dar por certo que ele não soubesse do perigo. (Dário pega as folhas) Como explicar que continue defendendo a Brastânio mesmo depois da crônica do Giovanni Guimarães? Hoje mesmo, de manhã, lá nos correios, ele disse as ultimas pra mim e pra Carmosina. Eu conheço o mundo, Tieta. A pior coisa do homem é a ambição do poder. Não há honradez que resista. 

Dário olha pra frente, e aponta para o horizonte. 
Eles enxergam as paisagens do Mangue Seco. 
Dário levanta o tom de voz mais uma vez, firme. 

Dário: Já pensou tudo isso aí coberto pela poluição? O progresso é uma coisa boa, mas é preciso saber eu espécie de progresso. 

Dário olha diretamente nos olhos de Tieta, sério. 

Dário: Se formos apenas eu, Barbozinha, Carmosina e uns dois ou três mais a protestar, pouco vai adiantar. Mas se você, Tieta, se juntar a nós, levantar a voz e tomar a frente, aí a coisa muda... 
Tieta: Eu? Por quê? 
Dário: Porque para o povo de Agreste você é a tal. E com razão. A luz da hidrelétrica, a velhinha salva no incêndio, sua figura, a bondade a franqueza, o seu amor à vida.Para essa gente, depois da Senhora Sant’Ana está você. O que você diz faz lei. Não se deu conta disso? 
Tieta: Sei que gostam de mim. Sempre soube. Quem me botou pra fora de agreste foi o velho, com me do da língua das beatas. Gostam de mim, mas e daí? Por que hei de me meter, me diga, comandante? Adoro minha terra e quero vir acabar meus dias aqui. Mas daí a me meter numa briga dessas... 
Dário: É sua obrigação. Você comprou casa na cidade, está construindo outra em Mangue Seco. Só lastimo que não fique de vez, sem esperar a velhice. 

Os dois sorriem. 

Dário: Já pensou que, se cruzar os braços agora, quando quiser voltar, nada disso existe mais? Que tudo acabou? Que Mangue Seco virou um esgoto da fábrica de Titânio? Já pensou no motivo por que nenhum país do mundo quer essa indústria em suas terras? 

Tieta olha para o horizonte, pensativa. 
Dário volta a pedir, em tom de súplica, e Tieta continua olhando o horizonte, séria. 

Dário: Só você, com seu prestígio, pode salvar Agreste, Tieta. Se você disser não, acabou Agreste... É o fim do Mangue Seco. 

Tieta se vira para Dário e o olha, séria. 
Antes que ela fale, Ricardo Intervém. 

Ricardo: A tia vai dizer sim, comandante. Não vai deixar que arrasem Mangue Seco. Senão, por que havia de fazer o Curral do Bode Inácio? 

Tieta olha espantada para Ricardo. 

Ricardo: Li o artigo no jornal, comandante. Barbozinha me mostrou. A tia não vai deixar que acabem com os peixes e nem com os pescadores. Nem ela nem eu. Se achar que eu sirvo para alguma coisa, pode contar comigo, comandante. 

Tieta olha para Ricardo, e depois para Dário. Ela sorri e sai para a frente da canoa. 
A Canoa se aproxima da margem. 

Tieta: Chegamos!