Rotação Contrária

Já havia se passado uma semana desde a última vez em que nos vimos... 
Agora, tudo acontecia com mais frequência: As ligações, mensagens, visitas, beijos... 
Para mim era normal, mas imaginar isso entre ele e eu, era algo estranho e duvidoso.
Os dias se passavam, e agora parecíamos mesmo um casal de namorados.
Pelo fato de eu ser MUITO medrosa, sempre achava que aquilo, uma hora ou outra iria acabar, eu queria me preparar para tudo.
Pra ser bem sincera nada daquilo era normal... Não que ele não fosse carinhosos, ele SEMPRE foi, pelo menos comigo... Mas, quando ele rodeava muito, era porque tinha algo para contar, e isso me assustava.
Três semanas haviam se passado, quando numa tarde quente, ele me liga no celular. Saio apressadamente da minha sala e enquanto desço as escadas atendo: 
- Olá Amooor, tudo bem? -
- Oi. A gente pode se ver depois das 18h? – Perguntou num tom sério. Quase fúnebre.
- Sim, claro, podemos sim... Mas, o que houve? – Perguntei enquanto segurava no corrimão para descer o último degrau da escada.
- Preciso conversar com você... As 18h busco você ai no trabalho, tudo bem? Preciso desligar agora, até depois... – E milhares de idéias e pensamentos começaram a se formar em minha cabeça.

Sentei em um banco próximo a escada e tentei colocar tudo no lugar dentro de mim. Ainda era 16:30, eu precisaria de sanidade pra viver até as 18h.
Andei por todo o pátio da empresa, contei até 3000 e voltei para o trabalho. 
Desci para bater meu cartão as 17:50, e ele já estava lá. 
Os vidros do carro fechados me provavam que ele estaria com o ar condicionado ligado. Ficar nervosa me dá frio, com o ar do carro ligado eu teria uma hipotermia.
Me aproximei do veículo enquanto me despedia de minhas amigas e ouvia o barulho do motor. Ele tinha pressa.
- Tá tudo bem...? – Perguntei enquanto jogava minha bolsa no banco de trás e ficava um pouco mais perto dele. 

Eu gostava do fato de ele não mudar de maneira drástica o seu físico. Acho que o mais longe que ele fez foi quando cortou o cabelo moicano, raspando os lados da cabeça. Ele me fazia sentir em casa em qualquer lugar do mundo. Ele era a minha casa.
Mas agora, meu Amor e meu melhor amigo parecia estar aparentemente nervoso.
- Preciso conversar com você... Tem algum lugar calmo que você queira ir? – Perguntou enquanto manobrava o carro em direção a saída.

Guiei-o até um dos estacionamentos de uma praia aqui dos arredores. Lá era aparentemente calmo... 
Não estava acostumada com ele apressado no volante, logo esse que morria de medo de BR e velocidade. Acho que em 20 minutos (e olhe lá) chegamos ao nosso destino.
Eu não sentia fome de nada, e nem sede. Meu estômago se contorcia, parecia que todo o suco gástrico do mundo estava dentro de mim.
Estacionou o carro bem de frente para a estrada, deixando então um céu estrelado tomar conta. Recostou a cabeça no volante.
Eu queria ligar o rádio, contar uma piada, quebrar o gelo... Mas, eu não sabia se devia.
- Amor? – Sussurrei. 
Ele me olhou de canto, e sorriu torto. Tinha algo errado ali.
- Você tá tão linda hoje... - Elogios sempre são bem vindos, mas depois de um dia exaustivo, com uma camiseta básica branca, calça jeans velha e all star sujo, eu não conseguia me sentir nada linda.

Desencostando a cabeça do volante, ele começou a me olhar um pouco mais de perto, daquele jeito que faz as minhas pupilas ficarem dilatas e sentir vontade de gritar.
- Pode começar a falar... – Disse baixando a cabeça para me desviar dos seus olhos.
Respirou pesadamente e começou:
- Eu não sei o que está acontecendo... Acho que eu tenho tentado evitar isso há muito tempo, mas agora, depois da última vez que nos vimos, tem sido incontrolável. – Colocou sua mão sob a minha e continuou. –Eu não sei o que está acontecendo comigo Desa! –
Ele estava quase choramingando.
- Me diz o que está acontecendo e eu te ajudo Amor. – Respondi já imaginando que ele certamente deveria estar apaixonado por alguém e não sabia o que fazer, algo do gênero. 

Ele finalmente levantou os olhos, procurando os meus. Ficou estático por alguns instantes, talvez pensando em como me falar.
Sorri, para tentar acalma-lo: - Não pode ser algo tão grave assim, né? Já passamos juntos por coisas muito piores, eu tô aqui e vou te ajudar! Anda, me conta seu idiota! –
Depois de um longo tempo sério, ele sorriu, daquele jeito que eu sinto vontade de roubar o sorriso dele e guardar só pra mim.
- Andresa... Eu... Eu não sei como explicar... Mas, eu acho que estou... Que estou... Que estou gostando de você.

Eu não respirava, eu não tinha movimentos... Nada. Ainda me pergunto como meu cérebro conseguiu processar tal notícia tão rapidamente.
As palavras que eu sempre quis ouvir desde os meus 17 anos foram finalmente ditas. E agora, eu não sabia como reagir diante delas.
Talvez eu devesse gritar, sair pulando, puxa-lo para um beijo, dizer que o Amava também... Mas eu não conseguia.
Eu tinha pensado em tanta coisa que não dei brecha para pensar logo nisso... Talvez, porque dentre todos os milagres do mundo, este era o que eu achava impossível.
- Você só pode estar brincando... né? – Perguntei ainda imóvel.
Sorriu: - Não... Não estou. Eu não brincaria com isso, você sabe...

Ele não brincaria mesmo.
- Mas, como que aconteceu isso? Quando que aconteceu isso?

Meu corpo recuperava os movimentos, e eu fazia perguntas sem sentido levando as mãos no rosto, na cabeça... Aparentando estar nervosa. 
Segurou meus braços deixando seu rosto próximo demais do meu, enquanto começou a dizer: - Continua tudo igual Andresa... Só que agora eu te Amo. Queria saber explicar como isso aconteceu... Mas desde a última que te vi as coisas não são mais as mesmas... Eu penso em você em vários momentos do meu dia. Eu sinto mais vontade do que nunca de ter você por perto... E agora, nesse momento, eu preciso te beijar. –
E antes que eu pudesse enchê-lo de mais pergunta, ele beijou.
O beijo dele tinha poder de me fazer ceder a qualquer coisa. Absolutamente qualquer coisa dessa vida. Com outros garotos, eu sempre tinha controle da situação e tudo acontecia conforme EU queria. Com ele, eu vivia a mercê de seus caprichos, de suas vontades. Seus lábios me engoliam, e eu queria fazer o mesmo com ele. Ofegava, me puxava. Acho que nem ele conseguia acreditar no que estava acontecendo.
Soltou meus braços durante o beijo, e me abraçou pela cintura. Coloquei minhas mãos em sua nuca arranhando de leve. 
Já sem fôlego, parti o beijo e não queria abrir os olhos.
- O que foi? – Perguntou sussurrando.
- Tô com medo... – Respondi ainda de olhos fechados.
- Medo de que Amor? – Perguntou preocupado enquanto beijava meu rosto.
- De ser mentira, de ser um sonho, de acabar... – Respondi abrindo apenas um olho e o fazendo rir por conta disso.
- Você quer tentar? – Ele perguntou, agora, olhando sério.

Respirei, sentindo uma súbita vontade de chorar. Apertei meus olhos na tentativa de conter as lágrimas, mas estas escaparam pelos cantos. 
Levei as mãos para o rosto, e ele ao se dar conta de que eu chorava, me abraçou, colocando a cabeça em meu pescoço e perguntando: 
- O que foi Amor?

Eu soluçava e tentava falar: 
- Eu esperei tanto por isso... É claro que eu quero tentar, acima de qualquer coisa eu quero isso. Eu quero te fazer feliz como você me faz...

Beijou a ponta do meu nariz e secou minhas lágrimas: 
- Para de chorar menina, eu quero te ver sorrindo daqui pra frente.

Recostei em seu peito, tendo em mente que tudo começaria a mudar. Pela primeira vez na vida, nós dois iríamos tentar... Juntos.
Eu sabia que não seria uma das coisas mais fáceis que já fiz. Um caranguejo e um leão nunca foram amigos, que dirá namorados.
Namorados... Só de imaginar eu dizendo as palavras “Namorado e o nome dele” na mesma frase eu sentia vontade de sorrir.
Ele afagava meus cabelos, e eu sentia seu coração bater forte.
- Pulsa por mim né? – Perguntei rindo abafado.
- Sempre pulsou... Mas agora, é diferente... Quer ir embora? Comer alguma coisa? Sei lá... O que você quer fazer Amor?

Me aninhei entre seus braços. Agora, eu sentia fome dele. Eu não queria ir embora dali, nada mais importava do lado de fora daquele carro. O mundo começou a girar de uma maneira estranha, porém, de uma maneira certa para nós dois.
Não iria fazer sentido as palavras dos outros a respeito disso, ou de talvez “o quão louca eu fiquei para me submeter a algo assim.”
Nada mais importava. O que importava, o que valia a pena, o que agora me fazia sorrir de verdade era que o Amor, o Meu Amor, o Amor de uma vida inteira estava ali. Ele finalmente estava ali.
Eu não sentia fome de mais nada. Eu não precisava de mais nada. Eu agora, tinha tudo. 

Andresa Alvez