O Guarda-chuva

Começou quando ela ainda era pequenininha. Chovia forte. Ela estava no quintal, desprotegida, ensopada, com frio e medo. Sua mãe chegou com um guarda-chuva e a protegeu do temporal.
Funcionou. A partir dali, sempre que via o tempo nublar, cobria-se com seu guarda-chuva. E nunca mais temeu nuvens negras.
Quando já mocinha e cansada de queimar-se de sol, resolveu também usar o guarda-chuva em dias de céu claro. 
Funcionou. A pele nunca mais ardeu. Passou a usar o guarda-chuvas aonde quer que fosse, fizesse o tempo que fizesse. E nunca mais teve medo da chuva, nem do sol.
Já era quase mulher quando passou a usar o guarda-chuva na porta do seu quarto, toda vez que se desentendia com os pais. No princípio, eles estranharam.
Mas, funcionou. Os pais acharam que era um sinal, um código talvez. E nunca mais a incomodaram.
Anos depois, quando finalmente saiu de casa e mudou-se para um apartamento (um lugar só seu, finalmente!), ela conheceu os problemas de ter vizinhos, porteiros, zelador...
A partir de então, só saía de casa com seu guarda-chuva. Se ela estivesse no elevador e algum desavisado por ali puxasse assunto, abria logo seu guarda-chuva e ficava quieta num cantinho.
Funcionou. Jamais foi importunada por conversas inoportunas.
Vendo que o guarda-chuva era útil também contra gente, passou a usa-lo também no trabalho. Cobranças do chefe, desentendimento com o gerente, cliente chato? Bastava abrir o guarda-chuva e pronto.
Funcionava. Ainda que alguns a chamassem de louca, deixavam-na em paz. Não havia chuva, sol, parentes ou pessoas que a deixassem com medo, desde que tivesse seu guarda-chuva.
Até que... um dia, ela conheceu ele. Foram tantas as promessas de felicidade e juras de amor eterno que, por um tempo, ela chegou a acreditar que era, de fato, feliz. Mas então, ele a deixou. Ela se sentiu de novo com frio, com medo e desprotegida...
Decidiu, então, usar seu guarda-chuva toda vez que seu coração insistisse em bater mais forte por alguém.
Funcionou?
Ali, em seu abrigo, nunca mais experimentou a dor do abandono. E nunca mais chegou a acreditar que era, de fato, feliz...
Certo dia ela pensou (como a mente vai longe!) no que escreveriam em sua lápide, quando partisse:
“Não tomou chuva, nem sol. Não brigou com ninguém. Nem sorriu com alguém. Não sofreu por amor, pois não amou.”
Naquele dia, mesmo com medo e desprotegida, jogou fora seu guarda-chuva.

Celso Garcia