Nós dois sozinhos

Eu estava sentado, sozinho. Ela estava em outra mesa, igualmente sozinha.
Estávamos os dois sozinhos num lugar cheio de gente.
Ela chamou o garçom. Pediu uma bebida, acendeu um cigarro, inalou fumaça e baforou melancolia. Deus, como estava sozinha! Não olhava ao redor, esperava por ninguém. Assim como eu, que a observava como se fosse um espelho.
Recostou-se na cadeira, pensamento distante. Olhava um velho lustre no teto sujo. Entreteve-se com uma mariposa debatendo-se contra a lâmpada. Pobrezinha, tentava, lutava, esforçava-se mas não conseguia chegar à luz.
Pedi outra dose. Ela também. Como éramos iguais.
Pensei (juro que pensei) em chegar e sentar-me ao seu lado. Talvez dizer algo como, “ei, estamos nós dois sozinhos”. Mas, estando juntos, seria uma contradição. Maldita contradição!
Ela acendeu outro cigarro, voltou a olhar o lustre. A mariposa cansara de se debater. Parecia satisfeita estando ao redor, existindo simplesmente. “Mais uma dose”, pediu ela.
Acendeu outro cigarro. Ah, se ela soubesse quão linda era com aquele cigarro nas mãos, baforando solidão em fumaça, talvez não estivesse sozinha.
Eu quis lhe pagar um drink (juro que quis). Mas hoje em dia isso não se faz. “Ela é autossuficiente”, pensei eu. Autossuficiente e sozinha.
O garçom trouxe outra dose. Ela segurou o copo, contemplativa, seduzindo aquele líquido e o ingeriu de único gole. Tombou a cabeça para trás, novamente o lustre.
A mariposa a debater-se contra a lâmpada. Agora, com mais força, enraivecida. O que buscava? Luz? Calor? Algo intangível. Até que, numa tentativa desesperada, a mariposa estatelou-se na lâmpada e caiu no chão. Ainda atordoada, foi pisoteada por alguém que passava. Ninguém percebeu. Só eu e ela, que estávamos sozinhos.
Ela pagou a conta, levantou-se e foi embora. Sozinha. E eu nem tive tempo de dizer que lhe fiz companhia.
Fui pra casa, sozinho (como de costume).
Em minha cama pensei no que poderia ter sido se eu não fosse assim, sozinho.
Àquela hora ela também estaria em sua casa, sozinha.
Estávamos os dois distantes, fazendo companhia um ao outro.
Tudo porque, a certa altura da noite, guiado pela lógica (não culpo a mim, mas à semântica), recusei-me a dizer “Ei, estamos nós dois sozinhos”. Maldita contradição...

Celso Garcia