Obscuridão

Eram exatas sete horas da noite e tudo lá fora estava escuro.
Eram tempos de muito tempo aqueles.
Olhar para o breu era tão medonho quanto os horrores do dia.
Nos jornais, os donos do poder anunciavam um tempo de paz.
Qual paz? Aquela vinda pelas mãos de grandes boçais?
Amordaçavam imprensa e prendiam líderes, para se firmarem.
Senhores da guerra, incautos e arautos de uma paz rouca e pálida.
Terror? Ora, maior terror é o que se impõe às mentes.


Então eu olhava pela janela, e nada acontecia do lado de fora.
Nem mesmo os ventos da noite sacudiam as folhas das árvores.
Um estado de pânico tão forte que nem elas usavam se mexer.
E de repente vejo algo se mexendo naquele breu.
Não dava para ver direito o que era.
O medo me fez imaginar tudo que pudesse ser
Animais noturnos...
Homens da guerrilha...
Capatazes do governo...
Ah, a angústia de não saber o que seria me consumia.
E o medo do pior cenário me apavorava.

Aos poucos, pude notar que chegavam perto, bem devagar.
Era gente. Sim, eram humanos.
Talvez muito mais amedrontados que eu próprio.
Mas, espere... Não... Eu não podia acreditar.
Não eram os espancadores de inocentes.
Mas também não era nada amigo.
Um homem que sempre primara por desavenças.
Coisa pequena de gente mesquinha.
Nada mais que rusgas de vizinhos.
Como isso agora era pequeno, meu Deus.
Quase nada...

Bateu à porta com gana.
Era o medo que lhe dominava as ações.
Não, não... Era o pavor.
Quando eu abri, mal podia acreditar naquela cena.
Meu mesquinho e rancoroso vizinho implorava ajuda.
Estava de joelhos diante de mim.
Pedia por si e por sua família.
Cada rosto, cada semblante que eu olhava...
Ah, quanto medo estampado naqueles rostos.
Mesmo os mais inocentes estavam sentindo a tensão.
Mas, poxa, era ele, que tanto me chateou.
Por que eu ajudaria alguém que me fez tão mal?
Estender a mão é fácil quando está no discurso.
Mas eu não sabia o quanto era difícil praticar.

Naqueles segundos em que eu os olhei tudo passou por mim.
Lembranças de dias de muita raiva e desentendimentos.
Foi então que acordei...
Poxa, nós estamos em guerra.
Que espécie de homem seria eu se negasse ajuda a eles.
Por mais entojados que fossem não tinham culpa disso tudo.
E na mesma hora os mandei entrar.
Acomodaram-se todos confortavelmente na sala.
Não seria difícil passar com eles aqueles momentos.
Na verdade é até mais fácil que passa-los sonzinho.

Herói? Não.
Apenas um homem que procurou ajudar seu semelhante.
Naquela casa não estávamos livres dos doutores em armas.
Mas éramos mais fortes que sós.
Ficamos à espera da anunciada paz coletiva.
Aquela mesma à qual o homem jamais se aproximou.
Aquela tão falada em livros e tratados.
A paz que nos venderam quando formamos sociedade.

Era o ano 2043.
E o homem ainda não sabia o que era evolução.

Leonardo Távora