Inventando: "No consultório"

A cena a seguir é fruto de mais uma das histórias que imagino tendo como cenário o palco de um teatro, uma das mais belas artes que existem, local onde o ator é testado na plenitude de seu talento, e o público tem um contato muito particular. Zé Henrique, um extravagante ator, precisou procurar os serviços de Pedro para se livrar de uma síndrome do pânico. Aqui é só uma cena. Mas tem toda uma história pra ser contada além dela. 
Boa leitura!
CENA: CONSULTÓRIO DE PEDRO / DIA / INTERIOR 
(O Consultório tem uma janela com persianas, donde não se vê o lado de fora, mas entra luz do dia. Por isso a importância da descrição “Dia”) 

ZÉ HENRIQUE (estatura média, cabelos castanhos, magro, rosto angular) entra no consultório com o semblante sério. PEDRO (alto e mais encorpado, cabelos negros) está mexendo no computador, concentrado, mas vê que ele entrou. 

PEDRO 
(olhando para o computador) 
Boa tarde. Mais um dia de conversa boa, né? 

ZÉ HENRIQUE 
Nem vem, Pedro. Hoje eu não estou pra conversar nada. 

PEDRO 
Ué. Então por que veio aqui? 

ZÉ HENRIQUE 
Nem sei, pra te ser bem sincero. Sabe aqueles dias de cama? Hoje é um desses pra mim. Devia ter ficado em cima dela. 

PEDRO 
(Curioso) 
Nossa... Mas o que de tão ruim aconteceu com você hoje? 

Zé Henrique encara Pedro, que olha para baixo e começa a preencher uma ficha com os dados da consulta. 

ZÉ HENRIQUE 
Ah não! Eu não vou falar um “A” se for pra você por na ata. 

PEDRO 
Isso não é uma ata. É apenas pra eu ter controle da sua evolução. Faz parte. E não, Senhor José Henrique Martins, isso aqui não pode ser visto por ninguém. Nem pela Luzia. 

ZÉ HENRIQUE 
Não mesmo? 

PEDRO 
(Debochando) 
Ética Médica... Sacou? 

Zé Henrique esboça um sorriso, debochando da fala de Pedro, que volta a fazer anotações. 

ZÉ HENRIQUE 
Ok! Vou contar... To com uma proposta nova pra atuar, mas to morrendo de medo disso. Sei lá, fracassar da última vez me rendeu visitas aqui. Se eu fracassar outra vez, vou parar onde? Manicômio? 

Pedro ri de Zé Henrique. 

ZÉ HENRIQUE 
Ei! Onde está sua “ética médica”? No código lá de conduta não tá escrito que não pode rir do paciente? Hein, doutor? 

PEDRO 
Não é isso, Zé. É que o jeito como você falou foi engraçado. Mas, me desculpa. É verdade que não posso rir de você. Mas, bem, pelo que você já me falou da ultima vez, não foi você quem fracassou. O texto não era bom, e a... Montagem... Ela não foi bem feita... 

ZÉ HENRIQUE 
É... Isso é mesmo. 

PEDRO 
O seu problema é que você é muito intenso, Zé. Lembra que já falamos sobre buscar um equilíbrio? Pois é. Se não for assim, esse medo que você está sentindo vai crescer, e crescer, e crescer... Até chegar ao ponto que o trouxe até mim. Se agora você está melhor, é porque baixamos esse nível de stress que tá sempre girando aí dentro de você. 

ZÉ HENRIQUE 
Você não sabe o quanto é difícil isso que tá me pedindo. 

PEDRO 
Ué... Claro que eu sei. Esqueceu que eu sou o psicólogo? A questão, Zé, é que esse medo aí só vai ser quebrado pela sua força de vontade. Eu ajudo, mas quem muda é você. Só você. 

ZÉ HENRIQUE 
Não, não... Você sabe, porque também não é lá o rei do equilíbrio. 

PEDRO 
(Surpreso) 
Como assim? 

ZÉ HENRIQUE 
Olhe para esse consultório. Tô notando isso desde o primeiro dia que vim aqui. Tudo muito no lugar, tudo muito certinho. Sua mente é fascinada por ter tudo no lugar. Será que sua cabeça é organizada desse jeito? Isso também é mania, não é? 

PEDRO 
Olha, o psicólogo aqui sou eu. Não é me questionando que você vai se encontrar, e domar seu problema. Você tem que perceber os “defeitos” que existem dentro de si, e não no mundo à sua volta. Então, vamos nos concentrar no seu problema?! 

ZÉ HENRIQUE 
Ficou nervoso por causa de uma constatação minha? Ora, Pedro. 

PEDRO 
Não é isso. Olha, Zé, eu não estou querendo te transformar em um Pedro Gross. Essa não é sua essência. Não é para você ter a mim como modelo. E é isso que você está tentando fazer. 

ZÉ HENRIQUE 
Não é não... Foi só um comentário. E nem era pra causar essa revolta toda em você. 

PEDRO 
Apontar os meus possíveis defeitos é um jeito que você está encontrando de justificar os seus. Isso não pode ser. Você nunca vai ser igual a ninguém, assim como ninguém jamais será como você. 

Zé Henrique pega um bloquinho e passa a fazer anotações. 

PEDRO 
O que você tá escrevendo? 

ZÉ HENRIQUE 
Não só para eu não me esquecer de algumas coisas das nossas consultas. Só um minutinho: “hoje aprendi que não posso comentar com o psicólogo sobre os jeitos dele, porque é uma ofensa ao exercício da psicologia”. Pronto! Podemos continuar. 

Pedro cai na gargalhada. 

PEDRO 
Você não existe, Zé. 

ZÉ HENRIQUE 
Claro que existo. Olha eu aqui. Vamos continuar? 

PEDRO 
Já deu sua hora. 

ZÉ HENRIQUE 
Ah, mas agora que tava ficando legal... 

PEDRO 
Quando a conversa é boa, nem notamos o tempo passar. 

ZÉ HENRIQUE 
É verdade, né? O bom é que sempre que venho aqui me sinto um pouco mais forte. 

PEDRO 
Que bom. Me sinto útil assim. Marcamos a próxima já? 

ZÉ HENRIQUE 
Vou ver isso com a Luzia. Obrigado pelo papo. 

PEDRO 
Que isso. Precisa agradecer não. 

Zé Henrique vai saindo do consultório, se detém, e olha para Pedro. 

ZÉ HENRIQUE 
Pensa no que eu te falei, tá? É sério... (olhando para o ambiente) Tá arrumadinho demais! 

PEDRO 
Até a próxima, Zé! Um abraço. 

ZÉ HENRIQUE 
(abrindo a porta) 
Até!... Dá uma pensada nisso. 

Zé Henrique sai. Quando ele fecha a porta, Pedro começa a observar o lugar. 

PEDRO 
É... Talvez! (pausa) Não, não. Pode parar, Pedro. Você não é o paciente.