Humanos - Modernos e Mecânicos

Já parou pra pensar como a vida tem se tornado um tanto quanto chata ultimamente? Parece que as coisas estão perdendo o sentido de existir. Lembre-se de quando as datas comemorativas não eram apenas épocas para frequentar shoppings atolados de gente atrás de presentes. Lembre-se de quando as pessoas se reuniam em torno de afetos sinceros e profundos... 
A sociedade está se mecanizando. É até uma guinada natural das coisas. O futebol, por exemplo, hoje é um negócio muito lucrativo. E quando se tem um negócio, não se pode dar margem a erros ou enganos. Com isso aquela arte de Pelé, Coutinho, Dadá Maravilha e companhia pode existir, claro, mas desde que seja pontual e não prejudique os negócios. É até bom fazer firulas, pois isso valoriza o passe do jogador, mas não pode ser toda hora, pois o negócio é mais sério do que uma simples partida de futebol. 
O natal vem perdendo anualmente o seu brilho. Alguns podem até culpar a igreja, virtual detentora da marca “Natal”, por ser aniversário de nascimentos de um dos seus “executivos” mais marcantes. A instituição pode até ter sua culpa, mas o maior de todos os artífices do mecanicismo da sociedade é cada um dos que dela participam. 
Propagandas estão aí para cumprirem seu propósito: Vender. A decisão de ser atraído pelas belas imagens que toda hora se impõe diante de nossos olhos é de cada um de nós. O publicitário apenas transforma informação em docinhos saborosos para nós, compradores. A partir daí, a culpa é sua, leitor. É nossa. Porque todos nós praticamos diariamente o mesmo erro: Dar mais valor ao que é material em detrimento do que parte de dentro de nós. 
Hoje sentimentos são compráveis com “presentes”. Um ‘eu te amo’ no dia dos namorados é inócuo sem o presentão tão esperado. Um ‘feliz aniversário’ fica minguado se as mãos não complementam o que saiu do coração. O ‘feliz natal’ não tem a mesma força se debaixo daquela árvore montada no canto da sala não estiver recheada de presentes, que concorrem em tamanho e opulência, amontoando-se aos pés dela. 
Não quero dizer aqui que presentes são coisas ruins. Apenas estou constatando que eles estão substituindo o que é mais precioso que a lembrança material, que é a pureza e a solidez de um sentimento verdadeiro, seja ele a amizade, o amor, a fraternidade, dentre uma gama de boas coisas que temos conosco para dar de graça aos que queremos tão bem. 
Lembro-me de uma frase entre namorados, que iriam ficar algum tempo distantes, por conta de sentimentos. A namorada deu um pingente que ela gostava muito ao seu amor, e ele recusou. Ela, sem entender, perguntou “você não me ama mais?”, e ele, de pronto, respondeu “Não é isso. É que eu não preciso de artifícios para me lembrar de você, porque o que está na minha memória já basta para eu nunca te esquecer”. 
Com esse excesso de influência do material no nosso íntimo e intransferível sentir, as pessoas vão se fechando em seus mundinhos particulares. Já não se confia na palavra. Já não se acredita nas verdades ditas pelo olhar. Já não se acredita no ser humano. Tudo precisa ser colocado no papel. Todo amor precisa de um presentão, e é medido de acordo com o tamanho dele. Aos poucos, vamos perdendo o encanto pelas coisas mais simples e mais gostosas do nosso viver. Estamos perdendo o prazer pelo simples gostar, pelo aconchego de um abraço, e a ternura de um saboroso beijo. 

Dar presentes é bom! 
Mas a alegria de um sentimento forte é ainda melhor.

Leonardo Távora