Trapaça Mental

As minhas pernas se acomodam bem em cima das suas. E minha cintura parece se encaixar muitíssimo bem na sua, apesar de toda a nossa diferença geográfica...
Entre risadas e poucas frases, brinco com seus dedos e conto suas infindáveis pintas.
Quatro paredes é o que temos, e claro, um toalete.
No DVD toca a playlist que você fez há algum tempo atrás.
Durante cinco meses, ouvi as mesmas músicas, ensaiei as mesmas falas.
Durante a última semana, procurei pelo melhor vestido e abri a caixa do meu creme de cereja.
No dia atual, acordei cedo para fazer um longo trajeto até te encontrar.
Verão, mas eu sentia frio. Dor no estômago e uma involuntária vontade de chorar.
A voz irritante saia das caixas de som do aeroporto me dando certeza de que seu avião estava pousando.
Minhas mãos foram rapidamente parar na barra do meu vestido, como faço sempre que fico nervosa. Me coloquei em pé, e a passos curtos fui para mais perto das portas de vidro.
Na minha cabeça, aquilo não era uma “porta de vidro” ou um “simples portão de desembarque.” Ali era como se fosse um portal! Um portal que me separasse de ti. Um portal que significasse distância, saudade e medo... E que dentro de alguns dias, conforme o andar dos beijos, significaria Amor também.
Não sabia que os vôos de São Paulo vinham para Navegantes com tantas pessoas dentro. Pensamentos de criança inocente esse meu...
Fiquei na ponta dos pés, algo em vão. Pouco tempo depois, te avistei. Passos calmos que foram se tornando rápidos gradativamente.
Quando me dei conta já estava nos teus braços, colocando as mãos no teu pescoço e sem saber o que falar. Olhei nos teus olhos e depois de tanto tempo, eu podia dizer: “Você é real!”
Sabe a frase “Só acredito vendo”? Pois bem! Não foi Tomé quem disse, e sim eu!
Em pouco tempo estávamos no hotel, e agora, voltamos para o começo da história...
Puxei sua camiseta. Queria ver seu tronco um pouco mais perto.
Como você havia me pedido uma vez, não saí de cima de suas pernas, só me abaixava de vez em quando para espalhar beijos por entre seu pescoço, olhos e ombros.
Ainda não havíamos nos beijado. Um silêncio se fez. Ele era normal, já tinha se passado pelo menos uns cinco deles... Mas dessa vez, você sentou, e colocou as mãos nas minhas pernas. Uma delas pousou em cima da minha cicatriz... Ai céus, os defeitos! Os meus não apareciam nas fotos. E os seus eram inexistentes!
Deixei sua mão ali, você podia. Ou melhor, você devia.
Passou os olhos pelo meu rosto, creio que na intenção de gravá-lo em sua memória. Desviei do olhar hipnótico, mas você levantou meu queixo e se aproximou.
Puxei você para mais perto de mim, o mais perto que você pudesse ficar. Queria sentir a tua alma, e não deixar você ir embora nunca mais.
Nos beijamos.
Calmo. Devagar. Ofegante. Com mordidas, puxões e leves arranhões.
Ao abrir os olhos, não estava mais nesse plano, e sim, no atual. Não estava mais sob suas pernas ou num quarto de hotel. Estava na minha cama, sozinha.
Era um sonho. Era mais uma vez, uma trapaça da minha mente para provar a mim mesma que você já está gravado no meu subconsciente.