As lições de um paciente pensador

Passando um dia pela beira do Rio dos Taiás, encontrei um moço muito sereno, tranquilo, que estava na beira da praia que fica na foz, naquele pedacinho onde o rio encontra o mar. Ele olhava na direção do interior daquele rio, para uma mata que existia à margem dele, com o olhar longe, como que transportando para lá seu pensamento. Fiquei intrigado com aquilo. Depois de pensar algum tempo, decidi conversar com aquele homem de semblante tranquilo e ar interiorano.
- Boa tarde, amigo! 
- Boa tarde! Tudo bom? 
- Tranquilo... E com você? 
- Ah! Eu tô jóia. 
- Posso perguntar uma coisa pra você? 
- Claro! Pergunte. Se eu não puder dizer, falo que não posso. 
- É que eu estava andando por aqui, e vi você olhando lá pro longe, com tanta calma, que fiquei intrigado. Desculpa a invasão, mas o que você tanto olha lá? 
- Tô só olhando meu passarinho, que foi pr'aquelas bandas de lá hoje. 
- Ele fugiu? 
- Não, não! Pra fugir ele tinha que estar preso, e eu não o prendo. 
- Não o prende, mas gosta muito dele, e sofre quando ele voa, não é? 
- Olha, eu só não sofro porque sei que ele volta. Pode voar por onde for, encantar um monte de pessoas com o canto dele, mas ele volta, porque ele sabe que em mim tem abrigo, carinho, essas coisas. 
- Entendi. Mas, e se alguém, por ventura o prender? 
- Se ele se deixar prender, é porque talvez eu não fosse suficiente para ele. Claro que isso dói, mas é algo que já não cabe a mim. Até porque a prisão não vem apenas de alguém conseguir capturá-lo, mas vem dele não querer fugir com tanta vontade assim. 
- Ah, me desculpa, mas gostar assim, com essa liberdade, não é gostar. Você gosta de admirar o passarinho voar, de vê-lo cantar livre por aí. Mas você não o quer junto de si. Passarinhos não têm o costume de fazer assim. 
- Isso é um engano seu. Não tem nada mais legal e prazeroso que vê-lo voltar, não porque ele está atrelado a mim, mas porque ele quis vir. Isso me deixa feliz, pois eu sei que represento algo pra ele, e por isso ele quer vir até a minha presença. 
- Instinto! 
- Pode ser. Mas instinto sem confiança não vale de nada. Pois o instinto principal dele é fugir, e não ficar ao meu lado. Meu passarinho só é meu porque eu o deixo ser do mundo, e ele quer ser meu. É ele que deseja vir. Isso me faz feliz. 
- Bonito isso. Tô contente por conhecer alguém que pensa assim. 
- Tá vendo aquela estrela ali? Aquela que surge primeiro? 
- Sim, a estrela Dalva! 
- Pois é. Todos os dias ela vem e vai. O mundo dá a volta, e ela reaparece. Assim é a vida. Quando alguma coisa é forte e permanente, por mais que rodemos o mundo inteiro atrás de uma coisa diferente, quando olharmos para o lugar onde deixamos aquela coisa, aquele sentimento, vamos encontrar no mesmo lugar, esperando nossa volta. 

Eu, que estava intrigado, ao conversar com aquele moço tão tranquilo recebi muito mais que uma resposta para minha pergunta. Queria apenas saber o que tanto ele fazia olhando aquela mata, recebi uma lição de vida que guardarei pelo resto da minha vida. Enquanto foi mútuo um sentimento, e ali existir a confiança, como na amizade entre ele e seu pássaro, pode se passar muito tempo, mas o que é livre volta, pois sabe entender que só é livre porque é amado, e aquele pássaro pode voar, cantar e encantar muitas outras pessoas, mas sempre voltará para aquele que tem um sentimento verdadeiro por ele.

Leonardo Távora