Cheiro de morango, olhar apimentado

É verdade. Daquela noite nunca mais nos esqueceremos mesmo. Não eram apenas dois corpos que se entrelaçavam em momentos soltos e fugazes de prazer. Havia ali duas almas que se encontravam, e se transformavam em uma só, sem pra isso perder sua individualidade, e suas armas próprias para a infalível sedução. O engraçado disso tudo é que nada daquilo fora pensado antes. Ao menos eu achei que aquele seria um encontro não mais que fruto de uma grande amizade, e nada alem disso. Você tinha a pimenta no olhar, a leveza no ser, e a alegria no viver. Você me desnorteou. Foi isso que me fez quebrar todas as barreiras pra te ver.
Lógico que você foi quem tomou a iniciativa de me abraçar. Lembro-me muito bem. É verdade que eu estava um tanto quanto imóvel, paralisado pelos seus encantos. E você cheirava morango. Nunca consegui esquecer mais aquele perfume do seu corpo. Seu cheiro só veio para completar a bela imagem que eu já fazia de você. Agora, além de vir pelos meus olhos, você chegou ao meu coração pelo cheiro. Eu seria capaz de te reconhecer no meio de uma grande multidão, não apenas porque se destaca naturalmente, mas porque uma das premissas do amor é que sempre sabemos onde nosso par perfeito está, mesmo que várias pessoas estejam dificultando a nossa visão.
Ao chegarmos ao quarto do hotel, eu, sinceramente achei que somente a amizade fosse o que existiria entre nós. Você viu o presente em cima da mesa. O presente que eu te contei, sem revelar o conteúdo, te deixando com a curiosidade à flor da pele. Ao abrir o embrulho, seus olhos brilhavam. Os mesmos olhos que insistentemente me seduziam, apimentados, desejosos, quentes... Parece que você não conseguia acreditar. Aquele DVD era o que você tanto queria. Eu bem sabia disso. Eu já conhecia seu gosto. Mas não imaginava que fosse ficar tão feliz. Tem vezes que os presentes não precisam necessariamente ser caros ou raros. Eles precisam apenas tocar ao coração de quem os recebe. Seu sorriso iluminou aquele quarto. Você me deu um abraço e um beijo. Fui ao céu com aquilo.
“Será que dá pra fechar aquela janela?” – Você disse. Claro que dava. Eu nunca imaginei que você fosse me pedir aquilo. Quebrei toda aquela distância pensando apenas em uma boa e saudável amizade. Claro, meu coração nunca concordou com isso, mas ele estava sufocado até aquele momento. Naquele momento, ele se libertou da clausura em minha mente o colocou, e dominou todas as minhas ações. Ali eu esqueci que só queria ser teu amigo, e me rendi a mais pura das verdades: Eu queria te amar. E nos amamos. De verdade. Com verdade. Um amor puro. Aquele amor que nem mil línguas afiadas prontas para destilar veneno são capazes de fazer balançar. Num quarto de hotel. Num espaço um tanto quanto “neutro”. Ali o amor venceu. Ali você me arrebatou, sem volta.
Você era a mais bela pessoa que eu já tive a oportunidade de ter. A mais quente de todas. A mais assanhada, eu diria. Tudo isso sem se deixar cair na vulgaridade. Aos poucos você foi quebrando o gelo. Era impossível ficar sem ação diante de seu. Aquilo não parecia real, pois você estava acima da realidade. Era tudo tão surreal que eu não sabia como agir. Mas aos poucos você foi me conduzindo, me “esquentando”. O espanto foi dando lugar às boas sensações. E à medida que isso acontecia, qualquer medo já seria tão menor que não mais poderia ser notado. O que ficava mais claro e notável naquele momento eram a confiança e a cumplicidade, além da nossa já sabida sintonia, que vinha de longa data.
Você fazia tudo de um modo fora do comum. Me atraia... Me excitava... Me acendia... Me fazia te desejar como o mais puro dos diamantes, a mais rara das jóias. Nos tocávamos e nos sentíamos de um jeito totalmente sem igual. Cada olhar seu, cada movimento de sua boca, cada suspirar, realmente inebriava meus instintos e me fazia sentir o melhor prazer da minha vida. Aliás, tudo aquilo era mesmo muito surreal, preciso reforçar. Qualquer pessoa que nunca vivenciou algo assim pode não acreditar. As horas passavam para todo mundo, menos para nós, menos naquele quarto. Ali não existia o tempo, as horas... Éramos nós. Apenas nós!
Será que era mais um sonho? Não sei. Só sei que foi muito boa aquela oportunidade de ter demonstrado todo o amor que eu sinto por você. Naquele momento, eu tenho certeza, você pôde sentir o meu amor. Foi tudo lindo. Nem mil Casmurros seriam capazes de decifrar e traduzir o que sentimos naquele quarto de hotel. Nem os olhos de ressaca de Capitu tiveram a chance de vivenciar um momento tão belo como aquele. Eu te amei. Eu te senti. Eu te tive. Eu te pertenci. Nada vai mudar isso. No mundo inteiro, não há o que possa transformar aquele momento em algo efêmero, sem importância. Aliás, não é possível se medir, tampouco se comparar a importância daquela noite em nossas vidas.
Eu ainda sinto aquele cheiro de morango que teima em invadir meu ser. Está impregnado. Já faz parte de mim. Algumas pessoas não poderão entender isso. Provavelmente elas nunca tenham vivido um momento tão mágico como este. Para quem não sentiu todas as emoções do nosso encontro, estas podem parecer apenas um monte de palavras bonitas, colocadas em outro monte de papéis. Mas para nós não. Nós dois sabemos muito bem o valor de cada pedacinho daquele momento. Está marcado em nós. Em nossa pele. Na nossa história.
Eu quis te dar um pequeno presente. Uma lembrança que ficasse gravada e que toda vez que para ela você olhasse, de mim de recordasse. Mas eu nem podia imaginar que presente maior eu mesmo seria o ganhador. Um presente para o qual eu não preciso olhar, mas apenas sentir. Talvez você seja a pequena faísca que acende o fogo adormecido em mim. Na verdade, você é o maior presente que a vida um dia resolveu me dar.