Uma tarde naquela beira

Aquela era apenas mais uma tarde como tantas outras que se sucediam naquela cidade. Na beira do lago, um homem um tanto quanto normal folheava livros e demais papéis, como se estivesse fazendo alguma pesquisa. Ele estava realmente muito concentrado, tanto que nem dava atenção a tudo o que ocorria à sua volta. 
Do outro lado daquele paradisíaco lago estava uma mulher, com olhos iguais aos da famosa Capitu, um chapéu branco muito elegante, e um jeito matreiro, como só ela sabia ter. Ah, e como sabia. Ela ficava de um lado para o outro ensaiando alguma coisa que ainda não era possível identificar. Só dava mesmo pra saber que era um ensaio porque ela marcava os passos no chão, incansavelmente.
Nada. Mas absolutamente nada faria com que, naquela tarde, surgisse algum tipo de sentimentos envolvendo esses dois tipos tão diferentes. O mais certo é que ele continuaria devotado aos seus livros, enquanto ela continuaria seu ensaio ao ar livre. Importante dizer que eles não estavam muito perto entre si. O que eu, pelo menos, consideraria condição para a permanência do status quo que se desenhava para aquela tarde. 
Mas o destino tem seus caminhos, e muitas vezes, eles costumam contrariar tudo o que imaginamos certo, talvez porque nossas vidas costumem trilhar esse “certo”. Naquela tarde, os dois precisavam se encontrar. E não só isso. Eles iam se encontrar. Algo fatal. Líquido e certo. Como? Ah, isso eu não faço a menor ideia. Mas tenho a ligeira impressão de que logo nós descobriríamos. 
Em um dado momento daquela tarde, começou a ventar. Nada tão pavoroso, mas o suficiente para espalhar os papéis dele, e levar o chapéu dela. Os papéis voaram um pra cada canto. O chapéu foi para perto de um daqueles papéis. E os dois foram catar tudo. Ela, logo após pegar seu chapéu, notou ele, desnorteado, amaldiçoando a ventania, e correndo atrás dos papéis. Ela quis rir. Conteve-se. Preferiu ajudá-lo a pegar os papéis. 
- Toma. Você está precisando de uma ajuda, né? 
- É sim. Odeio quando isso acontece. 
- Também acho. 
- “Também acho” o quê? 
- Que... Que... Ah, que o vento é um saco. 
- hum... Você é da meteorologia? 
- Eu? Claro que não. Eu sou executiva. Hoje é um dos pouquíssimos dias de folga que eu tenho. E estava ensaiando minhas falas para uma palestra que vou fazer num congresso chatérrimo. 

Eles se entreolharam, um interessado no outro. Então, ela tomou coragem, e perguntou: 
- E você? 
- Eu o quê? 
- O que você faz, oras. 
- Eu sou ator. Esses papéis aqui são textos que tô tentando decorar pra uma nova peça. Tá difícil. Bem complicado. É uma daquelas adaptações de Shakespeare. O problema é que meu diretor é totalmente revolucionário. Daí já viu. Eu estava até comparando com o texto do livro, o original, sabe? Pra achar um meio-termo. 
- Sei sim. 

Alguma coisa atraiu aqueles dois para a beira do lago. Mas o resultado disso tudo só mesmo os dois poderiam decidir. O destino fez a sua parte. Agora é com eles. E acho melhor nós também não nos intrometermos. Vamos deixá-los resolver suas vidas lá, tranquilamente.

Leonardo Távora