Ofegante

A noite não estava fria, muito pelo contrário. Mas naquele instante eu tremia e suava frio. Cruzei firme minhas pernas e fixei meu olhar no meu all star que não era mais branco.
- Deixa uma música, que saco! – Ouvi minha amiga dizer, com aquela voz doce, daquele jeitinho implicante!
- Calma, eu tenho uma música melhor pra te mostrar...

Passou os dedos rapidamente pela tela em “touch” até encontrar a música desejada. Se fez silêncio.
Baixou os vidros, o que me fez tremer mais ainda, tanto por dentro, como por fora.
As únicas pessoas que sabiam cantar aquela música era eu e ele. E cantamos.
Daquele jeito tímido, num sussurro.
Em alguns instantes eu fechava meus olhos, recostava minha cabeça no banco de couro branco e frio, e o ouvia cantar. Todas as notas musicais entravam pelos meus poros, causando ainda mais tremores e arrepios. A voz dele por sua vez entrava pelo ouvido, e a sensação era de que ele estava cantando ali, ao meu lado... Em outros, eu semicerrava meus olhos e o admirava balançar levemente os dedos no volante.
A camiseta com capuz deixava à mostra sua nuca. Lembrei de todas as manhãs em que minhas mãos corriam soltas por ali, fazendo-o sentir aqueles arrepios bobos.
O vento deixava seu cabelo ridiculamente perfeito num tom de mel se bagunçar, se moldar ao seu rosto e o fazer ficar ainda mais lindo do que já é.
O silêncio não era quebrado por nada. Minha amiga parecia estar desligada, em outro plano, quase no modo logoff.
Eu ali, guardando dentro de mim todos os cheiros, texturas, sons. Guardando quem sabe pela última vez, aquela voz, aquele sussurro tão doce.
Encarei o teto do carro, cravei minhas unhas no banco, respirei fundo, quase ofeguei. Eu precisava manter o foco, mas a música e o ambiente em meia luz não ajudava em nada.
- Entra nessa rua aqui, à direita... – Indicou os cincos dedinhos branquelos da minha amiga... E foi compassadamente dizendo para onde ele deveria ir.

Estacionou o carro, daquele jeito que o corpo diz “sei-fazer-isso-como-ninguém.” E de fato sabia.
Mas sabia muito mais me dobrar. Mesmo sem saber.
Peguei meu celular, desci do carro, ajeitei minha blusa nos ombros e segui. Segui com vontade de voltar. Mas não podia voltar, ele não queria voltar.
Como eu sei? Ele não olhou para mim em nenhum momento.

Andresa Alvez