Rouxinol

Um dia eu estava olhando da janela do meu quarto. Observava o infinito, aquelas montanhas que brindavam meus olhos com sua serenidade. Eu fitava as curvas simples, moldadas pacientemente pelo tempo, durante muito, muito tempo. Eu olhava para fora, porque era melhor que olhar para dentro daquele quarto, para dentro de mim mesmo. Algumas vezes, a vida precisa que busquemos no externo as forças que precisamos internamente. Eu olhava para aquela paisagem como se quisesse virar parte dela, que estava ali, serena, às voltas com sua própria harmonia.
Foi então que em minha janela simples, singela, pousou um passarinho. Era um rouxinol. Pássaro de rara beleza e cantar fascinante. E chegou ressabiado, mas pousou com segurança. Veio quando eu procurava razão para seguir em frente. Ficou quietinho, como se me olhasse, e entendesse que eu precisava de alguma coisa. Como num átimo de tempo, aquele passarinho soltou seu belo cantar. Era alto, melodioso, harmonioso. Quem não se encantaria com aquele pequeno rouxinol? Eu fiquei tomado, emocionado mesmo.
Por um momento, todos os meus problemas de gente adulta se foram. Ficaram perdidos, escondidos, envergonhados, diante da simplicidade do carinho que aquele pequeno rouxinol me dedicou ao entoar suas notas mais melodiosas. Simples. Profundas. Foi como se ele me dissesse “ei, se acalme, pois todo problema tem solução. A vida é mais simples do que lhe parece”. Ele brincava com as notas. Parecia muito contente em demonstrar toda sua capacidade para mim. Todo o seu talento. Era como se ele me ensinasse que não devo temer. Mas eu precisava olhar além da aparência, para entender isso.
Não se convence ninguém apenas com algumas palavras bonitas, é verdade. É preciso dar tempo para que tudo possa ser assimilado, e compreendido em sua plenitude. Às vezes, quando gostamos muito de alguém, somos capazes de aceitar tudo por isso, e, muitas vezes, nos esquecemos de nós mesmos. Nos apequenamos. Ficamos menor que um rouxinol cantador, que nunca quis ser maior que ninguém, e é livre, feliz... Eu precisei entender que eu só seria livre se parasse de temer, como ele. E eu fiz isso. Depois do rouxinol, eu cresci, porque parei de temer.
Num rompante mesquinho, tentei tê-lo pra mim, apenas, para que ele pudesse cantar todos os dias, e com esse canto, alegras meus dias, e me trazer inspiração. Então eu tentei pegá-lo. Tentei mantê-lo comigo, tirando dele a liberdade. Mas olhei para fora da janela, e vi um outro rouxinol, mais afastado, que, do seu jeito, chamava meu rouxinol para junto de si. Com seu semelhante, meu pássaro querido podia ser mais livre, e certamente mais feliz.
Então o rouxinol que estava em minha janela voou. Levou consigo o seu belo cantar. Levou também um pedaço do meu coração. Ele foi pra perto de quem ele gostava, de quem podia ser como ele. É, rouxinóis não foram feitos para viverem aprisionados. Eles precisam da liberdade para encantar multidões com seu cantar. É assim, de janela em janela, que eles fazem sua parte, levando felicidade aos outros, pequenos, tão menores que eles, pois não têm o poder de fazer feliz alguém com algo tão simples quanto sua presença em uma janela de quarto.
Vai, rouxinol de belo cantar. Vai ser feliz. Vá voando por onde você acha mais seguro, e onde se sinta mais livre. As outras paragens lhe devem ser mais agradáveis que minha singela janelinha. Eu também vou tentar ser feliz, aqui, com os pés no chão, ainda que me desejo seja voar contigo. Me recolho novamente à minha pequenez revestida de um falso sentimento de grandeza, tão comum aos humanos, que se acham tão melhores, mas não sabem apreciar o belo canto de um rouxinol livre. Sei que um dia posso aprender, e conhecer minha liberdade. Mas jamais me esquecerei do dia que pousou em minha janela aquele rouxinol pequenino e com um belo cantar.

Leonardo Távora