Literatura em capítulos: Vidas Amigas


"Haverá coisa mais agradável do que ter alguém com quem falar de preocupações, de alegrias, como se falasses contigo mesmo?" Cícero

Hugo Pontes resolveu se instalar de vez em Belmonte. Tudo para inspecionar de perto as futuras obras do complexo moveleiro que iria ser montado na vila. E o empresário Trouxe toda a família para morar com ele. A capital, Belo Horizonte, ficava perto, e Hugo queria proporcionar melhor qualidade de vida para a esposa e os filhos.
Aliás, a esposa de Hugo Pontes, a esnobe Maria Francisca Pontes, não estava gostando nada de sair do seu conforto na capital para ir morar “no meio do mato”, como ela mesma falava. Os filhos também não gostaram muito da idéia. Diego e Laurinha não queriam se afastar dos amigos que tinham, além de não concordarem com a idéia do pai de acabar com parte de uma mata virgem para construir mais uma fabrica de móveis. Mas todos acabaram por ir morar na pacata vila.
Laurinha era a típica “rebelde sem causa”. Uma menina com tudo na vida, mas que se sentia infeliz, pois não tinha a atenção e o carinho da própria família. Apesar de presente, Hugo Pontes era muito ocupado, e a garota vivia em conflito com a mãe. Já Diego era um rapaz como todos os da sua idade. Aos 17 anos, o garoto vivia pensando em carros, mulheres, festas, dentre outras coisas. Vivia cercado pelo afeto da mãe, e tentando mediar as brigas que presenciava entre ela e a irmã. Ele gostava muito de Laurinha, e ficava entristecido por vê-la discutindo com sua mãe.
Enquanto a família do empresário preparava sua mudança para Belmonte, na vila, a notícia da construção do complexo moveleiro de Hugo Pontes pegou a cidade de surpresa. Augusto ficou irado com a idéia. Helena também não gostou nada desta idéia. Carol ficou pasma, pois não conseguia imaginar a bela mata da vila acabada para dar lugar à uma indústria.
- E os animais que vivem lá? Existe todo um ciclo biológico nessa floresta. Será que esse empresário não pensa nisso? – argumentou Carol, indignada.
- É um crime o que estão querendo fazer com Belmonte. Isso não pode ficar assim. Ninguém percebe que isto vai acabar com a calma e a tranqüilidade da nossa vila? – afirmou Augusto.
- Isso não pode ficar assim, e nem vai. Vamos nos preparar para impedir que essa fábrica seja montada aqui. – Disse a engajada Helena.

Helena era a pessoa que tinha mais coragem para enfrentar o poderoso Hugo Pontes. A jovem parecia disposta a tudo para impedir a construção do complexo do empresário dos móveis. E sua energia e vigor sempre contagiaram as pessoas à sua volta, o que contava muito para que ela conseguisse o apoio da vila para esse caso. A briga iria ser difícil entre Hugo Pontes e Helena Almeida. Os dois estavam muito convictos em suas posições, o que tornava mais quente ainda o caldo que estava prestes a entornar.
Rodrigo pouco sabia do que ocorria na vila, pois passou a se isolar na fazenda do Sr. Rafael. A vida do rapaz era puramente cuidar dos animais da fazenda e andar à cavalo. Esta atitude do neto já começava a preocupar Dona Olívia, que percebeu logo que algo de errado estava acontecendo com o neto.
Carol foi até a fazenda para conversar com o amigo, pois estava com saudades dele e queria saber o que estava acontecendo. Encontrou Rodrigo muito abatido, como se estivesse doente. Isto preocupou muito a jovem. Ela não gostou nada de ver o amigo daquele jeito. Fez de tudo para tentar animá-lo, e assim, colocá-lo de volta à vida. É assim que os verdadeiros amigos agem. Pois amizade não se resume somente em horas boas. A verdadeira amizade é aquela que se percebe em todos os momentos, sejam eles bons ou ruins.
Depois de conversarem muito, Carol percebeu que o problema que estava afligindo o seu amigo era a tristeza. Mas, porque ele estaria triste? Com o que? Esses eram os questionamentos que Carol teria que responder para saber como ajudar Rodrigo. Ela precisava ajudar Rodrigo, pois, além de uma forte amizade, ele sempre foi seu protetor, aquele que sempre cuidou dela, que se esmerava em preservá-la do terrível mundo. Carol precisava fazer alguma coisa por ele. Mas ela não sabia como agir, porque, se fosse um machucado físico, seria mais fácil, mas, esses assuntos da alma são muito complicados de entender, quiçá de resolver.
A preocupação de Carol em relação a Rodrigo também era a mesma de seus avós e de seu pai. Apesar de estar sempre envolvido na política, Seu Antônio sempre fizera questão de estar junto do filho. Depois que se casou com Beth, teve de se dividir entre Rodrigo e os filhos que ela já tinha.
Os avós de Rodrigo também estavam tentando arrumar uma explicação para a repentina ação isolacionista do neto. Eles também não conseguiam entender o que estava se passando. Mas sabiam que algo não estava bem com seu querido neto. Talvez, o único que pudesse saber um pouco mais sobre este estado de Rodrigo fosse Augusto, pois eles andaram conversando e Rodrigo tinha no amigo uma pessoa em que podia se abrir, conversar, sem alarmar, sem causar desesperos.
Quem estava um pouco “por fora” do assunto era Helena, que estava engajada em impedir a devastação da floresta de Belmonte. Ela estava mobilizando a vila para tentar fazer com que o prefeito Zé Carlos proibisse o desmatamento. Mas esse estava preocupado em levar o progresso para a região. Zé Carlos estava certo de que, dessa forma, as pessoas teriam uma qualidade melhor de vida, porque teriam mais empregos e, assim, gostariam ainda mais dele, e o reelegeriam nas próximas eleições.
Mesmo engajada na luta pela proteção da mata, Helena começou a perceber que algo estava errado com Rodrigo. O “desaparecimento” dele da vida social da vila também a preocupava, embora ela nem soubesse que ele estivesse atravessando um problema em sua vida. Só foi descobri que Rodrigo andava triste quando encontrou sua prima, Carol, pensativa demais para seu gosto. E Carol contou que tinha ido conversar com Rodrigo e que não gostara nada do jeito do rapaz.
No início, Helena procurou minimizar o problema, dizendo que Rodrigo estava se sentindo só porque vivia apenas dentro do curral da fazenda do seu avô, cuidando de um monte de animais. Mas, depois, pensou: Se isso era o que o deixava feliz, motivo pelo qual estava fazendo o curso de medicina veterinária, então, não poderia ser esta a causa de sua tristeza.