Literatura em Capítulos: Vidas Amigas

Capítulo VIII

"Amizade, palavra que designa vários sentimentos, que não pode ser trocada por meras coisas materiais. Deve ser guardada e conservada no coração." (Autor Desconhecido)

Depois da primeira investida contra a construção da fábrica de móveis Helena ficou mais animada. As pessoas receberam muito bem o panfleto que eles distribuíram na porta da igreja. Melhor ainda foi a cara de assustado que Diego e Laurinha fizeram ao ler o panfleto. Não teve coisa melhor para Helena. Não que ela tivesse qualquer problema com eles, mas ela sabia que através dos filhos, a mensagem logo chegaria ao pai, Hugo Pontes. E isso era o que mais interessava a Helena. 
Era momento de não deixar a peteca cair. Não se podia perder a animação conquistada por essa primeira ida às ruas para protestar. Salvar a mata de Belmonte era essencial para eles, e para a cidade em si. Carol queria comemorar logo à noite, mas Helena preferiu que todos se reunissem em sua casa para ajeitar a passeata. Logo após a entrega dos panfletos, e com toda a boa recepção deles, Helena pensou que realmente seria bem mais fácil a adesão contra a instalação da fábrica de Hugo Pontes na cidade.
E assim se fez. Aos poucos, foram chegando os amigos na casa de Helena. Só Rodrigo não apareceu. Estava demorando. Carol ficou preocupada. Queria ir até a casa dele para saber se ele iria mesmo ao encontro. Augusto também estava preocupado, mas achava exagero seguir os passos de Rodrigo. Helena não deixou Carol ir. Se ele não queria estar perto, tinha os motivos dele. Era preciso não sufocá-lo, deixando-o pensar bem. Ele sabia que podia contar com os outros três amigos sempre que precisasse. Então, não era preciso dessa marcação cerrada. 
A reunião, então, teve inicio, mesmo sem a presença de Rodrigo. Helena não queria perder tempo. Ela também estava preocupada com seu amigo, mas não podia fraquejar de seus objetivos. É verdade que ela confiava, também, que ele entraria em contato assim que precisasse. Então, não precisava se preocupar tanto. 
Ideias foram surgindo. Todos concordavam que as coisas deviam acontecer da maneira mais pacífica possível. Aquele era um movimento de proteção de uma biodiversidade que beneficia a todos em todo momento. As pessoas só precisavam saber disso. Tudo bem que o apelo da geração de empregos era fortíssimo, mas isso não podia acontecer à custa da qualidade de vida de todos. 
Foi então que alguém bateu à porta. Helena foi atender, pensando que poderia ser Rodrigo, mas quando lá chegou, não encontrou ninguém. Apenas um bilhete, jogado por debaixo da porta, que dizia: 

“Pare com seu protesto já, antes que sua petulância prejudique você além do que imagina.” 

Ao ler aquilo, Helena viu o medo tomar conta das feições de Carol. Augusto também olhava desconfiado para aquele papel. Não havia nenhuma assinatura, e a caligrafia parecia ter sido pensada exatamente para confundir, não deixando que Helena descobrisse quem seria, dando a nítida impressão de ter sido escrita por alguém que não tinha uma letra muito boa. Ao ler o bilhete, e ver a reação de seu amigos, Helena soltou uma boa gargalhada. 
- Olhem no espelho as caras de vocês? Muito engraçados... 
- Isso é sério, Helena! – Ponderou Carol – Precisamos tomar mais cuidado. Estamos mexendo com gente poderosa, e isso nunca termina bem para os que têm menos dinheiro. 
- No caso, nós! – completou Augusto. 
- Gente... Pelo amor de Deus, né. Vocês esperavam mesmo que o Hugo Pontes ficaria quieto quando visse o panfleto que entregamos na porta da igreja? Claro que ele faria alguma coisa para tentar nos colocar medo. 
- E conseguiu. Eu já vi isso nos filmes. – Disse Carol. 
- Também não é pra tanto, Carol! – Disse Augusto. 
- Se o Hugo Pontes vai nos colocar medo só com um bilhetinho, então é melhor desistirmos agora de tudo, e deixarmos que acabem com a mata da cidade. Eu, sinceramente, não acredito que estou do lado de gente medrosa, pessoal. 
- Helena tem razão. Não podemos ficar com tanto receio assim por causa de um mísero bilhete. 
- Tudo bem, Augusto. Mas será que pára em um bilhete só? 
- Se continuarmos sendo pacíficos, sim, Carol. Acho que sim! 
- Hugo Pontes não vai nos colocar medo. Eu garanto a vocês que venceremos essa luta. 
- Mas quem te garante que foi o Hugo Pontes que mandou esse bilhetinho? 

A pergunta de Carol fazia sentido, pois não era só Hugo Pontes que tinha interesse na instalação da fábrica de móveis. Tem mais gente que não queria ver o grupo de Helena se manifestando com tanta veemência sobre esse assunto. Na verdade, era bom que eles nem se levantassem contra a derrubada da mata. Seria o melhor dos mundos pra algumas pessoas da cidade. 
No momento, Helena preferiu falar que era bobagem. Mas no fundo da sua consciência, ela bem sabia que se aquilo fosse coisa do Prefeito Zé Carlos, era uma ameaça mais séria. Helena conhecia os artifícios do Prefeito, nas disputas que ele já teve com seu pai, seja pela prefeitura, seja por outras situações da política. 
Então a reunião seguiu. E tudo ficou decidido para a passeata que eles fariam. Augusto ficou responsável por arrumar o maior numero possível de pessoas para se engajarem naquela caminhada. Carol ficou responsável por providencias as faixas e cartazes, e Helena a ajudaria nisso. Tudo acertado, e era hora de se despedir. Mas naquela noite, eles iriam, cada um pra sua casa, bem rapidinho. E Carol era a que estava com mais medo. Natural... 
Helena ficou pensando em tudo que saíra daquela noite. Volta e meia vinha em sua mente as boas imagens da praça da igreja, do povo gostando de saber melhor sobre as implicações da instalação da fábrica de móveis de Hugo Pontes na cidade. E o bilhete... Esse, realmente, deixou Helena um tanto quanto intrigada. Se não é coisa do Hugo Pontes para amedrontá-los, podia ser um recado direto a ela, vindo do prefeito Zé Carlos. Isso era de se preocupar. 
Helena precisava de alguém pra dividir sua preocupação. Mas quem? Não era todo mundo com quem ela poderia se abrir. Naquele momento, só um nome apareceu na mente de Helena com condições de ouvi-la e ajudá-la sem a julgar: Rodrigo! E era ele mesmo quem ela deveria procurar. Para ajudá-lo, e para ser por ele ajudada também. 
Num rompante, Helena levantou-se do sofá e saiu correndo para ver Rodrigo.

Leonardo Távora