Separação

Já passava do meio-dia quando Juliano acordou. Num porre horrível que balançava sua cabeça como se estivesse em pleno mar. Tentou se levantar e não conseguiu. O despertador tocava insistentemente em sua cabeça. Fechou os olhos. Abriu os braços na esperança de alcançar o celular. Procurou por toda a extensão da cama, como um míope que procura seus óculos. Sem sucesso.

Acordou novamente às 14 horas. O celular estava ao seu lado. Arremessou-o contra a parede. Só depois pensou que poderia ser Lorena. Levantou-se de um pulo como se a cabeça não doesse. Resgatou as partes que sobraram inteiras e começou a montar o aparelho. Ao encaixar a bateria e ligar, a dor de cabeça voltou. O som estridente que vinha do celular entrava em seus tímpanos e ele podia jurar que uma britadeira perfurava seu crânio. Atendeu.
- Alô? Oi?

O celular continuava mudo. Tirou da orelha e tentou identificar na tela quebrada o número que aparecia na bina. O visor parecia mais um borrão de tinta na parede. O cristal líquido avia se espalhado.
- Alô? Quem tá falando? - Repetiu.

A chamada caiu. Juliano tinha certeza de que era Lorena. Haviam brigado na noite passada. O relacionamento de dois anos e oito meses estava terminado. Desde que levara o pé na bunda até as quatro da manhã ele havia se embebedado de todos os líquidos alcoólicos que se possa imaginar. Jurava que a tequila era a única vilã. Mas, no fundo sabia que a vodka, o whisky e a cachaça tinham contribuído com uma parcela de culpa.

Sabia que não poderia ficar sem sua amada. Também sabia que seu orgulho a impediria de falar algo mesmo que tivesse coragem de fazer uma ligação. Pegou o telefone, encheu-se de coragem e ligou:
- Não fala nada! Só me escuta. Quero te dizer que tudo o que aconteceu ontem foi culpa minha. Detesto brigar contigo, detesto ficar longe de você, odeio ver você triste e odeio que não me queira mais. Quero que me perdoe, mas preciso de conversar pessoalmente com você. Podemos nos ver hoje?

Ficou sem resposta. Só ouvia a respiração ofegante da ex do outro lado da linha.
- Não vai me responder? Não é possível que eu não mereça nem a sua consideração. Depois de tanto tempo juntos eu não mereço ao menos uma resposta? Não precisa me procurar nunca mais então. Nunca! Sua egoísta, ingrata!

Desligou o telefone. Foi para a varanda fumar. Viu a portaria de seu prédio se abrir bem abaixo dos seus pés. Pela porta saiu Lorena aos prantos.

Gustavo Dias