Literatura em capítulos: "Vidas Amigas"

Olá, amigos! Hoje eu dou inicio a mais um projeto dentro do Literatura Exposta. A proposta é escrever uma história completa em capítulos aqui no blog. Já marquem nas agendas de vocês. As ultimas postagens do mês serão sempre um novo capítulo dessa história. É mais ou menos como uma novela. Vou colocar mensalmente um novo capitulo aqui, sempre relembrando fatos importantes do capítulo anterior. Como tudo tem um começo e um fim, e essa história terá seu fim, ainda não sei quando, pra dar espaço a outras novas histórias. Não percam!

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Capítulo I

“É uma consolação da vida termos alguém a quem descubramos o nosso coração, a quem confiemos os nossos segredos, amigo fiel que nos felicite na prosperidade, que se solidarize com nossas tristezas, que nos ampare em nossa desgraça.” Santo Ambrósio.

Eram ruas pitorescas, calçadas com pedras irregulares, em um lugar tranqüilo, onde era possível ser feliz. Em uma bela cidade de Minas Gerais aconteceu a história que aqui vou lhe contar... As pessoas eram muito amigáveis, agradáveis, pacatas. O povoado tinha umas mil e quinhentas pessoas que viviam em harmonia plena, mesmo que, às vezes, houvesse alguns desentendimentos entre eles. Imagine um lugar que conseguia existir com as próprias pernas, um lugar que comia o que cultivava em suas roças, que bebia o leite que era tirado das vacas ali da região. Esse era o povoado de Belmonte.
Alguns irão dizer que esse lugar nunca existiu, mas eu afirmo que ele ainda existe, mesmo que sobreviva nos pensamentos daqueles que o conheceram no coração daqueles que o amaram. E neste vilarejo, encontramos quatro jovens amigos, que sabem dar valor ao significado da palavra Amizade. Rodrigo, Carolina, Augusto e Helena são jovens que estão descobrindo a vida. Juntos desde pequenos, eles sabem dar forma à maneira mais bonita de se encontrar o amor. Eles conhecem profundamente o que é ter um amigo.
Todos da vila concordam que Carol e Rodrigo se gostam. Os amigos até fizeram apostas de quanto tempo levaria para que eles começassem a namorar. Mas eles são apenas bons amigos, os melhores que um dia pode ter havido. São cúmplices, são companheiros, mas não se gostam a ponto de namorar, pois eles sabem que um amigo é a coisa mais bela que há, e são capazes de compreender que se não há clima para namoro, o melhor é ter um bom amigo e saber que é se pode contar com ele nas horas mais adversas de nossa vida...
Aliás, amizade é uma coisa que cada pessoa desta vila conhece. O padeiro, Seu Paulo, por exemplo, é um mestre de cativar amigos. Sempre que se chegava na vila havia um pão gostoso para se comer e uma pessoa boa para uma conversa que podia se demorar horas. Sempre tinha alguém na padaria do Seu Paulo.
A única briga mais séria que eu presenciei naquele lugar, foi uma disputa muito acirrada entre os dois fazendeiros da região. Sr. Almeida era um fazendeiro bonachão, destes que gostam de parecer gente da “elite”. Ele produzia leite, e além de abastecer a população da vila, conseguia ainda vender para a venda de um amigo seu na capital. Já o Sr. Rafael era um vovô daqueles baixinho e bigodudo, arteiro, que vivia fazendo peripécias com seu neto Rodrigo e com o resto da garotada. Ele era o responsável pela agricultura na vila, pois era ele quem vendia mais produtos alimentícios para a população. Com seus legumes, o Sr. Rafael abastecia quase todo o mercadinho, a hospedaria e as pessoas que compravam diretamente dele.
Todo o problema se deu por causa do topete dos dois “velhinhos”. Um mal entendido foi o estopim para uma disputa de terras e poder. Tudo aconteceu porque surgiu um boato na vila, de que o Sr. Almeida estaria querendo comprar mais terras, inclusive as do Sr. Rafael, para poder plantar também, e com isso, se tornar o mais poderoso da cidade. Pronto, estava formada a confusão. E como em lugares do interior as pessoas sempre tomam partido deste ou daquele lado, e como, no interior as pessoas têm o hábito de ter sempre uma solução para tudo, logo a vila estava dividida.
Mas nem todos ligavam para a encrenca que se formara por conta deste fato. Helena, Rodrigo, Carol e Augusto nem se importavam com o acontecido, pois a amizade que os unia era mais forte que qualquer coisa que pudesse afastar os seus familiares. Sim, pois Carol e Helena eram primas, netas do Sr. Almeida. Já Rodrigo e Augusto eram amigos de infância. Rodrigo era neto do Sr. Rafael e Augusto era como se fosse um neto também, pois os pais dos garotos viviam grudados, brincando junto com o resto da garotada. A família de Augusto era muito amiga do Sr. Rafael e da Dona Olívia, o que contribuiu para a grande amizade entre eles.
Aliás, já ia me esquecendo de falar aqui sobre duas amigas de longa data. Dona Olívia e Dona Letícia, esposa do Sr. Almeida, sempre foram amigas desde a juventude, nos tempos do colégio. Elas conheceram os seus maridos ao mesmo tempo, que também eram, digamos assim, meio que amigos. Mesmo depois do desentendimento entre os topetudos velhinhos, as distintas senhoras continuaram a grande amizade entre elas.
Como se pode ver, a amizade é algo que há muito se cultivou em Belmonte. E como a vila era pequenina, era mais fácil se conhecer, mesmo que não existissem muitos pontos de encontro para os jovens. A pracinha ficava cheia de pessoas de todas as idades, principalmente depois da missa, embora a garotada predominasse no lugar. É interessante ver como havia respeito ao próximo, coisa rara nos dias de hoje. Mesmo que houvesse a formação das “rodinhas” de conversa, não existia, pelo menos no que posso relatar algum grau de discriminação para com a terceira idade, como é comum vermos na cidade grande, onde as pessoas estão perdendo a capacidade de amar e, por isso, estão se tornando insociáveis, uma vez que não se tem mais tempo para estar com os amigos.
E assim, aquele lugar vivia em paz. Era como se os problemas que afetavam as vidas das pessoas dali demorassem em chegar e se instalar. Por isso, tenho certeza, posso aqui relatar a história de um lugar de gente feliz, mesmo que às vezes, essa felicidade fosse dissipada com alguns elementos da discórdia, da inveja e do egoísmo.