Na rua do mar

Minhas pernas amanheceram doloridas. Dor gostosa de se lembrar, mal conseguia dobrar os joelhos e isso me fazia sorrir.
Com o tronco nu, pude sentir a textura macia do cobertor de pêlos acariciar meu busto.
Do lado esquerdo, dormias calmo, sereno. Com alguns resmungos, é claro.
Procurei sua camiseta verde para usar de camisola. Baguncei meus cabelos e encarei a sacada.A luz do sol daquele domingo aquecia meu coração. Era setembro, era frio, mas eu não o sentia.
Você abriu os olhos lentamente, me analisando com cuidado.
Eu não queria te olhar!
Fazia poucas horas que tinhas visto meu interior, que tinhas me tocado as cicatrizes, os medos, os cachos, beijado os dedos, os lábios.
Eu te tinha tão íntimo naquela manhã. Eu te sentia, me sentia.
Poucas palavras foram trocadas até a hora de me despedir de ti.
Eu fiquei e fui.
Gosto do fato das paredes do antigo prédio guardarem muito bem os nossos segredos de sábado, os teus suspiros tão profundos, todo o mato que armazenávamos no chão do quarto.
A água quente do chuveiro e tua pele coberta de manchas vermelhas, o piso frio, a maquiagem jogada no lixo.
Trapiche, vento, teu casaco, as roupas sujas. A areia, uma crise de risos sem fim!
A Saudades não me deixa em paz!
 
Andresa Alvez