Literatura em Capítulos: "Vidas Amigas"

Leia aqui o Capítulo I

Capítulo II

“Graças à amizade estão presentes os ausentes, os pobres são ricos, os covardes ficam valentes e, o que é mais incrível, os mortos vivem.” Cícero

Passeando pelas ruas de Belmonte, contemplando a arquitetura barroca do lugar, as belíssimas construções feitas possivelmente no século XVII, estavam Carol e Helena trocando confissões:

- Sabe Helena, eu gosto de viver aqui ! aqui é calmo, tranqüilo, vivemos em uma grande paz ... É ótimo esse lugarzinho!!!
- Aqui é bom Carol, mas, não sei, acho que preciso de movimentação. Esse lugar é muito parado. Em Belo Horizonte nós podemos viver com mais agitação. Acho que ficar parada em casa não é para mim.

É, assim é a agitada Helena. Essa garota não consegue ficar parada. Visita Belmonte nos fins de semana, pois estuda na capital, onde também mora com seus pais. Como podes ver, Carol é diferente da amiga nos gostos. Enquanto Helena não acredita nos homens, pois os acha muito falsos e supõe que nunca irá encontrar um amor verdadeiro, Carol já sonha com uma vida à dois, já pensa em encontrar seu príncipe encantado...
É assim que grandes amizades são feitas, porque ficaria chato o mundo se todos fossemos iguais. A diversidade é o que faz com que sejamos queridos ou não pelas outras pessoas. Eu penso que é como se o outro, o amigo, fosse uma expressão do que desejaríamos ser, é aquilo que gostaríamos de fazer e, por motivos diversos, não o fazemos. Um amigo é algo que completa a pessoa. É como um namoro, só que sem a proximidade do namoro.
Você pode perceber que grandes amizades são formadas em meio a divergências, desde que essas adversidades naturais do ser humano não prejudiquem a percepção das qualidades do outro e nem das afinidades existentes entre os amigos. Amigo que é amigo passa por cima dos defeitos do outro. É como se estes fossem muito menores que as qualidades do mesmo.
E assim, com essa diversidade de pensamentos, foram as amigas passeando pelas pacatas vias da vila. Sim, se podia passear tranqüilamente em Belmonte, sem a pressa natural das grandes cidades, ávidas por fazer dinheiro, lugares onde perder tempo significa ter prejuízo. É por isso que as clínicas psicológicas vivem cheias. O ser humano, em algum momento, vai precisar da ajuda destes profissionais, pois a vida é muito complicada para quem vive entre os leões da selva de pedra.
Na casa do Sr. Rafael, o dia já amanhecia animado. O intrépido vovô gosta muito de passear à cavalo com seu neto, Rodrigo. E o jovem aproveita os momentos que tem com o sábio avô para aprender algumas coisas da vida. É com Sr. Rafael que o jovem passa a maior parte do seu tempo. Embora estude, e como a capital fica muito próxima de Belmonte, Rodrigo optou por viver com seu querido avô, pois o sacrifício de ir e vir todos os dias seria compensado com as horas agradáveis que passaria com o vovô e Dona Olívia, sua avó, que, aliás, sempre o esperava com guloseimas postas à mesa.

- Diga, meu neto, como está a sua faculdade? – perguntou Sr. Rafael
- Bem, vovô. Veterinária é mesmo o que eu sempre quis para minha vida. Cuidar dos animais é a melhor coisa que pode existir no mundo !
- É, eu gostaria mesmo que você tivesse estudando agronomia, porque assim você poderia cuidar das nossas hortaliças. Mas, se você está feliz, que bom ...
- O Rafael sempre quis alguém pra tocar isso aqui para frente. – interrompeu Dona Olívia – Nunca se conformou em ver isso acabado depois que morrer.
- Ora vovô, isso não vai acontecer, mesmo porque a vida no campo é tudo o que eu mais gosto, e depois, cuidar de planta não é tão difícil assim. E eu vou poder ter meus bichos sem que para isso eu precise me desfazer dos nosso legumes deliciosos.

E a animada conversa entre neto e avós continuou por um longo tempo. Eles conversavam sobre tudo. Mas o que Rodrigo mais gostava de ouvir do avô era suas experiências de vida. E isso o Sr. Rafael tinha de sobra. Do alto dos seus 74 anos de vida, ele tinha muita coisa para passar para o amado neto. Era assim a vida deles, quando não estavam no meio da mata observando as diversas espécies de pássaros, um mais belo que o outro. Eram Sabiás, Pintassilgos, Cardeais, Beija-flores e até os engraçados “Rola-bosta”. Haviam também os animais da terra como as capivaras, os porcos-do-mato e outros encantadores seres que vivem na pouco preservada mata que ficava próxima à Belmonte.
O estudioso Augusto passava a maior parte do tempo em casa, debruçado nos livros, para poder entender as complicadas leis florestais que protegem as florestas do Brasil. Ele era estudante de Engenharia Florestal, e queria arrumar uma maneira de preservar a pequena área de mata virgem que ficava à margem da vila. Por isso, empenhava-se nos estudos para um dia conseguir impedir a derrubada de árvores que ali demoraram séculos para se formar e se transformar nas gigantes que podíamos ver.

- Filho, estou indo à mercearia do Seu Paulo com a Clara.
- Está bem, minha mãe ! Vou terminar de estudar aqui e vou sair também. Vou me encontrar com o Rodrigo. Ele me ligou e me disse que precisava falar comigo.
- Até mais, então.

Augusto não sabia, mas a área de floresta próxima à Belmonte estavam sendo negociada com um poderoso empresário da indústria moveleira, o maquiavélico Hugo Pontes. Esse homem não mede esforços para conseguir aumentar o seu patrimônio, e estava procurando uma área próxima à Belo Horizonte para fixar o maior complexo moveleiro de Minas Gerais. Uma indústria enorme, que abasteceria cerca de trinta por cento do mercado de móveis da capital.
E Belmonte era um lugar estratégico para as ambições de Hugo Pontes, pois, além de se encontrar próximo de BH, o empresário contava com a colaboração do destrambelhado prefeito Zé Carlos, uma figura hilária, que só pensava em fazer o município crescer, de qualquer maneira, para se promover politicamente.
Quem já estava sabendo disso era o Sr. Almeida, que não estava gostando nada da possibilidade de ter alguém mais poderoso que ele em Belmonte. Não porque ele fosse uma pessoa má, muito pelo contrário. O Sr. Almeida, apesar do seu ar prepotente, era boa pessoa, gostava de estar sempre entre as pessoas da vila, na mercearia do Seu Paulo, o padeiro. Talvez a “mancha” que pesasse sobre ele fosse a vontade de ter sempre mais poder que os outros, numa espécie de auto-afirmação. Sr. Almeida pensava em ser o próximo prefeito, e acreditava que os dias do atrapalhado Zé Carlos estavam contados a frente do município.
Mas o prefeito Zé Carlos estava mesmo é se preparando para uma batalha eleitoral quando decidiu atrair o empresário Hugo Pontes para Belmonte. O magnata dos móveis estava à procura de um local para seu complexo moveleiro fazia algum tempo, mas encontrou na pacata vila um lugar perfeito para se instalar. E ainda encontrou um prefeito maluco que dava sustentação às suas ambições.