Literatura em Capítulos: Vidas Amigas

Capítulo III
“Quando Xantipa censurou Sócrates pelos magros preparativos que fazia para receber amigos, ele respondeu: - Se são meus amigos, não se importarão com isso. Se não o são, nós não nos importaremos com eles” Epicteto

Num domingo, quando o sol já se punha e as aves se preparavam para dormir, logo depois da missa, a pracinha da vila ficou bastante cheia. E os amigos se encontravam para contar novidades, falar deste ou daquele fato, ou mesmo para falar besteira e jogar conversa fora. Afinal, não há nada melhor que isso. Não há nada melhor que encontrar os amigos para rir um pouco da vida.
- Gente, o padre Manoel é uma figura! – exclamou Helena.
- Porque você diz isso Helena? – perguntou Rodrigo.
- Vocês não perceberam os deslizes dele na missa de hoje? Foi muito engraçado o momento em que ele começou a falar de coisas que não tinham nada relacionado com a homilia! Só ele não percebeu. – se divertia Helena
- Isso é mesmo! – ponderou Augusto – E naquele momento em que ele quase tomou um banho com a água do lava-mãos, foi muito hilário !
- É gente, o padre Manoel já está velhinho, mas não se entrega... É tão bonito! Tá certo que ele precisa de auxílio, mas sem ele, Belmonte não seria a mesma. – falou Carol, com tom de carinho.

Ele podia não ser mais o mesmo de antes, mas o Padre Manoel era um dos homens mais respeitados da vila. Apesar de atrapalhado, seus conselhos influenciavam muito a vida dos moradores, principalmente da juventude, já que o padre não tomava para si a postura de guardião dos bons costumes. Ele tinha seu modo de falar e persuadir os jovens, fazendo com que estes não se afastassem da vida na igreja, embora tivessem outras coisas para pensar, coisas estas próprias dos jovens.
Querido por todos os moradores da vila, Padre Manoel era ajudado por. D. Letícia. A esposa do Sr. Almeida gostava muito das missas, e, como vivia na igreja, sentia-se na obrigação de ajudar o velho padre. Beth, a madrasta de Rodrigo, também se sentiu responsável por ajudar o padre, já que ela era uma das mulheres mais presentes dentro da igreja. Ela mantinha a filha, Ana Maria, dentro da paróquia. A menina tinha uma educação religiosa muito rígida, pois Beth queria que a garota fosse para um convento.
Mãe protetora até demais, Beth acabava por manter o filho Pedrinho afastado das “perigosas” ruas de Belmonte. O menino não podia brincar com os amigos porque a mãe dele não permitia, já que ela temia que ele pudesse se machucar muito ou pegar alguma doença.
Bem, depois que Carol e Helena foram para a casa, Augusto pôde enfim conversar com o amigo. Uma conversa que iria deixar Augusto bastante apreensivo, pois o que Rodrigo tinha para lhe dizer era algo muito sério. Rodrigo estava com o semblante bastante triste, como se algo de ruim estivesse acontecendo com ele.
- O que foi, meu amigo? Por que você está triste?
- Não sei, Augusto. Só sei que estou sentindo uma angústia muito forte. Um aperto em meu coração que não consigo explicar... Que não agüento sentir!
- Mas o que houve para você é sentir assim? Que eu saiba você é bem feliz aqui.
- É, mas acho que me falta alguma coisa em minha vida... Mas não sei o quê?
- Ah não, Rodrigo! Não gosto de te ver assim. Você é tão alegre. Vamos melhorar esse rosto?

Rodrigo esboçou um tímido sorriso. Mas o jovem estava meio incomodado com alguma coisa. Algo não ia bem na sua vida. O problema é que nem ele sabia explicar o porque de tanta tristeza. É como se lhe estivessem colocando uma faca no peito, e apertando-a. É como se estivessem o sufocando. Augusto ficou preocupado em ver aquilo. Como ele poderia ajudar seu melhor amigo? Que coisa difícil...
Helena também percebera o olhar triste com o qual Rodrigo estivera durante todo o tempo que ficaram juntos, conversando na pracinha. Em princípio ela não quis comentar nada com a prima, mas suspeitava que algo não estava indo bem com o rapaz. Mas Carol percebeu que a prima ficou muito pensativa depois que voltou da missa.
- O que foi, Helena?
- Nada. Estou pensando em umas coisas aqui.
- Desde a missa você está calada.
- Não, eu conversei bastante com vocês na pracinha. Só estou mesmo com o pensamento longe, minha prima.
- É o Rodrigo?
- Por que seria?
- Eu vi que você não parava de olhar para ele, como se estivesse querendo desvendar alguma coisa. Está acontecendo algo de errado? Algo que você não queira me contar?
- Prima, eu notei que ele estava muito triste... Que será que está acontecendo com nosso amigo? Hoje, o Rodrigo não era aquele rapaz feliz que estamos acostumadas a ver. Isso é muito estranho...
- É, pode ser... Mas eu acho que tudo isso é impressão sua ! não deve ter acontecido nada demais com ele, senão ele teria nos contado. Rodrigo é o melhor amigo que tenho. Se estivesse com algum problema, certamente o dividiria comigo. Sempre fizemos isso, desde que éramos crianças.
- Por isso que dizem que vocês se amam. – falou Helena em tom de ironia.
- Isso eu não sei. Mas eu sei que desde quando o conheço, Rodrigo é o amigo com que eu posso contar sempre que precisar. Sempre conto para ele sobre os meus namoricos lá em Belo Horizonte. E ele sempre me conta das aventuras dele. Apenas acho que temos uma amizade aberta, bonita... Só isso!

Carol não se cansava de argumentar pela amizade dos dois, mas Helena não estava acreditando, pois, para ela, entre homem e mulher existe outro tipo de sentimento, que não é a amizade pura e simples. Helena estava convencida que Carol e Rodrigo sempre se gostaram, mas nunca tiveram coragem para revelar esse amor.
Mas a própria Helena não acreditava no amor. Por isso ela ficava tão confusa ao ver os amigos, pois, ao mesmo tempo em que descredenciava esse sentimento, não conseguia negar que o estivesse vendo nos olhos da sua prima e do seu amigo. Isso deixava essa “feminista” muito confusa.
No amanhecer do dia seguinte, Belmonte dormia, enquanto os primeiros raios do sol tocavam a terra orvalhada pela noite. Era muito agradável sentir aquela brisa, aquele friozinho gostoso do início do dia, com aquele sol começando a esquentá-lo. Logo cedo, podíamos ver uma fumaça saindo da chaminé da mercearia do Seu Paulo. E junto, vinha um cheirinho maravilhoso de pão recém saído do forno. Mas não era só o pão que o padeiro fazia. E as guloseimas eram as coisas mais gostosas que já se comera.
Nas fazendas do Sr. Almeida e do Sr. Rafael o dia também começou cedo. A ordenha das vacas e a coleta dos legumes tinham que ser feitas cedo, pois tinha que estar tudo pronto para o dia começar. E a cidade precisava dos produtos das duas fazendas. E os pássaros cantavam para alegra mais o dia. Falando a verdade, quem nunca gostou de ser acordado com o canto dos pássaros, serelepes, brincando nas árvores, do que acordar com o estresse da cidade grande, com toda aquela poluição, aquele barulho infernal dos carros, sempre apressados.
Rodrigo, logo cedo, pegou um cavalo e se pôs a cavalgar sozinho, como se estivesse querendo uns momentos para pensar em sua vida. Não fizera como todos os dias, quando, nessas horas da manhã, ele cavalgava com seu avô. Nesse dia, preferiu ficar só, consigo mesmo. E o rapaz precisava mesmo colocar as idéias no lugar, descobrir o que o estava atrapalhando, o que o incomodava.