As belezas pela internet: "Enamorar-se d'outra vida"

Olá, pessoal! O texto que abre este mês de julho aqui no blog foi escolhido com grande dedicação. Trata-se de algumas palavras que Antônio Novais, do blog Onomatopeia das Ideias, publicou, nos fazendo partilhar de seus pensamentos bastante sóbrios e tocantes. Este é um autor que tenho o maior prazer em contar que fiquei insistindo para que criasse uma página como esta para mostrar ao mundo o valor de sua arte. Eu o conheço há algum tempo já, e sempre soube que ele faz seus textos, pensamentos e frases avulsas com uma qualidade incrivel e, em certa medida, rara. Vale a pena não apenas conferir este texto, mas os demais que estão alocados no link acima.
Boa leitura:

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Enamorar-se d'outra vida
Antônio Novais

O estandarte dos cortejos populares é o mesmo que os usados diariamente entre povos que se matam, e então, comparei a beleza deste dia à aflição de pessoas morrendo em combate.
Nos ensinaram a não roubar, a não matar, e entre as várias outras coisas que nos ensinaram, nos ensinaram a não mentir. Mas intrinsecamente entre estes ensinamentos, existe o preceito de não acreditarmos totalmente no que dizem, e que até aqueles que amamos nos mentem, nos brincam e por vezes depositam sua parcela de descrédito. Os que nasceram primeiro inventaram algumas normas. Sua prole, outras. E eu, invento então as minhas.
O casal que jurou, descumpriu. A criança que tinha heróis, hoje nem os lembra. O homem é mal dito, e a mulher é fingidora. Nenhum de nós é tão estável para acompanhar por inteiro as necessidades do outro. Damos valor ao que não temos, e ao que possuímos - mesmo que em parte - estranhamente acreditamos que mesmo sem o devido cuidado será para sempre.
Eu deveria ter nascido em outra era, não como homem ou animal, talvez alguma espécie de vegetal que frutificasse à beira de um rio e que minhas sementes se perdessem... E que a germinação dos meus filhos viesse para sempre em tempos distintos, e assim, haveria uma parcela de mim para sempre, em todo o canto deste rio.
Eu não cogitei a hipótese de participar destas guerras, eu não escolhi, e se pudesse juro que fugiria. Somente os monstros cá dentro gostam de tais coisas... Gostam de brigar, de oprimir, apontar, decidir... Eles são sanguíneos. Só o que fazem comigo já basta, seguro-os como posso para proteger aquele que não os conhece. As coisas que conheço a primeira arte não tocaria, a quinta não representaria, e a décima primeira não ousaria tecer.
Me sinto fora de, ausente de, que falta o que, não sei o que, mas me falta algo. Incondicionalmente me sinto incompleto. É como o aço que se retorce ou o entalhar da madeira, adquiro formas... Mas de origem, não sou aquilo.
Vejo beleza em pequenas coisas e me alegra as pequenas coisas que vejo. Minhas árvores, os animais, meus poucos amigos, as grandes matas que conheço e as águas da cachoeira que um dia me banhei. Dentre tantas coisas e pessoas que amo, o que verdadeiramente importa é que sempre estarão guardadas, por mais que eu diga não mais amar como forma de proteger-me, que me afaste, ou ainda que as machuque... Mas não foi por mal, não foi por querer, não foi por gosto... Eu as amo, mas não consigo cristalizar o ato do amar.
E assim o homem instintivamente tem maior afeição ao que se vai, porque é somente através dele que o homem consegue desprender-se das imagens e ser sincero consigo mesmo, recebendo todas as descargas do sentimento, retoma àquela consciência do humano que sente, e a transborda.
Findei por abraçar chorando a estátua do homem que se tornou herói depois do óbito, e a sentir saudade comprando as obras do artista que já morreu.