As contradições de nós mesmos

A gente tem uma mania estranha de dar sempre um valor excessivo às coisas que costumam nos fazer mais mal que bem. O noticiário fala das coisas que precisam ser modificadas, por isso tornam-se notícia. Balela. Nossa natureza vê na maldade mais atração que o belo. Esqueça obra de arte, boa música, momentos agradáveis com amigos. Tudo isso vira pó no exato momento em que terminamos de ver, ouvir e sentir o que as sensações boas nos mostram. Mas o ruim exerce sobre as pessoas tal poder que faz com que elas ruminem-no por dias a fio. E com o outro é melhor ainda.
Aliás, o que acontece de ruim com os outros é algo que, pode-se negar, mas fascina. Parece-me que os humanos foram criados pela força negativa, e não pela positiva, como nos é ensinado. Desde que não mexam comigo, com o outro pode acontecer o inferno que não estou nem aí é até acho graça. O que as pessoas esquecem é que sempre há um dia após o outro, que o pau que bate em Chico também bate em Francisco, que amanhã, os outros de quem eu ri podem estar rindo de mim também. “Ah, mas eu não dou motivo”. Será? A gente se acha perfeito, e nessa perfeição, muitas vezes erguemos nosso dedo inquisidor para quem não é perfeito como nós, pela nossa ótica, diante do nosso impoluto pedestal santo e casto. Temos a mania de julgar os outros pela nossa régua torta, mas que enxergamos a mais reta e impassível de um milímetro sequer de desvio. E não admitimos, importante ressaltar, um minuto sequer que sejamos questionados, pois é um absurdo homérico sermos tratados com tamanha injustiça pelo outro a quem julgamos, quase em ponto de execração, não ser tão perfeito como nós, nem tão impoluto e cheio de qualidades como nós. Atacamos como se jamais pudéssemos ser atacados de volta. Somos abertamente contraditórios, mas sem nunca admitir que isso seja verdade. Enfim, nós somos humanos. É, sendo humanos, somos -mas não dizemos isso a ninguém – os mesmos que recebem com ramos e mandam crucificar uma pessoa num curto espaço de tempo. Somos o átimo. Somos o efêmero em nos mesmos. Somos a criatura que quer ser o criador. Somos os arautos da moralidade mesmo quando nossa moral não se sustenta nem dentro do seio familiar. Somos quem ataca por medo de ser atacado. Somos a chegada sem partida e a saudade na presença. Somos a sombra da nossa própria luz. Somos os monstros que habitam em nos, e a leveza de um sonho bom que nos envolve. Somos quem pratica o que critica. Somos o contrário de nós mesmos.

Leonardo Távora