Inventando: "A revolta de Fred"

Voltei com meus roteiros autorais aqui! Escolhi uma cena totalmente avulsa de uma das histórias que invento e que um dia lhe contarei. A brincadeira nessa cena, especificamente, é fazer um monólogo. O Fred é um vilão daqueles que disfarçam muito bem suas intenções. Bom, ele também não é, assim, humano. Aqui, ele está sendo confrontado pelo mocinho (que não direi quem é, nem qual sua motivação para desafiar a fúria do Fred). Acho que vale a pena ler e tentar sentir se as emoções dessa personagem conseguem te tocar ao ponto de você imaginar tudo na mente, sem que uma TV ou a tela do cinema te contem isso. Esse é o meu desafio: Te fazer imaginar. Conseguirei?
Boa leitura!

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CENA - SALA DE FRED / INTERNA / DIA
FRED (Homem de olhar firme e fala contundente, que manipula pelo olhar, muito bem vestido, com os cabelos escuros muito bem penteados) está em sua sala, sentado em uma poltrona olhando fixamente em direção à câmera. Seu olhar é sério e concentrado.

FRED
(após algum tempo olhando a câmera, como se alguém estivesse com ele) 
E o que você entende como verdade? Aliás, o que você sabe disso? (Pausa) Vamos. Me diga! O que é a verdade para você? Eu não sou esse cordeiro de presépio que todos acham, mas estou longe de ser tão vil quanto você me pinta. Por algum tempo eu achei que poderia confiar. Sabe o que é decepção? É o que eu sinto pelo mundo desde que nasci. As pessoas não são melhores que eu, meu amigo. Desde pequeno sofro nas mãos deles. (olhando para o vazio) Mas me pagaram. Um por um, o que comigo fizeram. Sem dó. Porque ninguém teve dó de mim quando acabavam com as minhas esperanças, com os meus sonhos. (Pausa) Se eu contasse a verdade, essa verdade que você quer ouvir de mim, será que você acreditaria em mim? Será que esse ato puritano tão falso quanto o de todos aconteceria? Não... Não! você não gostaria mais, nem menos, de mim. Talvez isso nos poupasse essa cena tão cheia de falsas traições, de sentimentos nulos. Talvez você também pudesse deixar cair sua máscara. Será que sou mesmo assim tão diferente de você?

Fred levanta-se e caminha pelo ambiente. Pega um livro e começa a folhea-lo.

FRED
Sabe, eu queria ter o poder de colocar os feitos de cada pessoa em um livro. As glórias e os percalços. Sobretudo os percalços! Porque das glórias todo mundo fala, né. Mas das más passagens da vida, ninguém comenta. O errado é sempre o outro. (Pausa - ficando com raiva) Ninguém é candidato a santo no mundo... Porque todo mundo já se acha santo. Pecador é sempre o vizinho. Ninguém assume os próprios erros em momento algum. Nem para si. Nem para se corrigir. Nem para APRENDER. Se pelo menos as pessoas se corrigissem, sem precisar de punição pública nem nada. Não, né? Enquanto alguém não arrancar a máscara, a vida segue, com os mesmo erros, com as mesmas faltas, os mesmos pecados...

Fred dá um soco na mesa.

FRED
EU TENHO NOJO DOS HUMANOS. Eu detesto essa vida rasa que todos levam, com verdades mentirosas, seguindo sem entender nada sobre a verdadeira vontade que nos move em busca do que realmente precisamos fazer nessa vida. (Pausa) Você sabe qual é o maior objetivo das pessoas? Ter alguém a quem mandar. Só isso. Projetos de vida se resumem em poder dizer que chegou à chefia de uma equipe, de uma empresa, corporação, ou ago assim. (Descontrolado) MERDA DE SONHO. MERDA DE VIDA. MERDA DE CRIATURAS!

Fred se recompõe e volta para a poltrona.

FRED
(Agora bem calmo)
Pronto! Estou nú. Sem máscaras. Sem fantasias. (Risos) Faça o que quiser com as verdades que te disse. Vá por essa porta e cante ao mundo que sou a besta deste apocalipse que vivemos. Saiba apenas que você está me jogando aos lobos para encobrir os erros de tantos. Como o filho dele fez uma vez. Faça outra! Me crucifique! Quem sabe vocês me fazem uma homenagem póstuma, contando glórias irreais sobre mim, erguendo templos e imagens de grande valor. Vai lá! Faz o que você tem vontade. Não se traia. Não finja que esse tom chocado de quando chegou aqui seja mais uma cena desse teatro surreal. Faz! (mais sério) Faça!

Fred permanece sentado, enquanto a câmera se afasta e se esmaece em fade off. Ao voltar, em close, ela o pega sorridente e calmo.

FRED
(firme)
Fraco. Ele vai fazer exatamente o que eu desejo e o inverso do que queria. (Pausa) Como o ser humano é patético. Como é fácil inverter os fatos. Vai, imbecil. Segue meu rumo! Mal sabe o que te espera.

Fred sorri, satisfeito, firma o olhar no horizonte e cruza os dedos próximo ao queixo.


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Leonardo Távora