Manifesto ao retrocesso

Não conheço quem prefira
Admirar prédios
A vislumbrar montanhas
Não sei de gente
Por mais estranha que seja
Que goste menos de
Colocar o pé descalço
Sobre a grama fresca
Do que de fazê-lo sobre
O quente piche do asfalto
Algum desnaturado trocaria
A sombra de uma frondosa árvore
Pela de uma marquise de concreto?
Acho que não. Duvido.
Está pra nascer alguém
Que ache que piscinas
São mais belas que o oceano
Ou que goste mais
De ouvir o som irritante
Das buzinas dos carros
Presos no trânsito
Do que de ouvir as melodias
Dos cantos dos pássaros
A revoar pelo céu azul
Livres como devem ser
Também acho que
Não há viva alma
Mesmo no mundo de hoje
Que troque o abraço
Caloroso de um amigo
Por um "like" insosso e genérico
Nas redes antissociais
É improvável que exista
Na minha idílica opinião
Um único ser humano
Que troque um beijo de amor
Por um “Beijo, até logo. Tchau.”
Numa ligação telefônica
Não, não insistam
Não há gente assim
Mesmo nesses tempos
Em que tudo parece estar
De cabeça pra baixo
Mesmo nos dias de agora e já
Tão distantes de nossa origem
Nosso peito bate em paz
Os olhos brilham de alegria
Diante da simplicidade da vida

Celso Garcia