Completando o incompleto

Era final de tarde, com um pôr-do-sol incrível, colorindo as brancas nuvens com um tom amarelado, muito bonito de se ver. O sol se escondia atrás daquela montanha, e o nosso herói estava ali, naquela janela, esperando nem sei o quê. Queria que seu grande amor passasse, para que ele pudesse conhecer. Queria que alguma daquelas luzes que o sol mandava, e que tão belo fazia o céu naquele fim de tarde, o pudesse iluminar, e fazer sua vida ser mais feliz.
De tanto ficar correndo atrás do amor, mal conseguia enxergar tudo o que a vida já havia o proporcionado. Amigos, viagens maravilhosas, boas companhias, grandes gargalhadas, momentos emocionantes... Em sua curta e jovem vida, o nosso herói já tinha, na verdade, vivido diversas alegrias. Qualquer pessoa seria enormemente grata à vida por ter vivido tantas coisas. Mas ele sempre achou que havia algo como um buraco em sua vida. Era como se ele fosse incompleto.
Na verdade, todos nós achamos que falta alguma coisa, sempre. É justamente esse sentimento que nos move, para que procuremos nos inventar, criar novidades, e alimentar nossas vidas de felicidades, que passam tão rapidamente quanto chegam. Ali era a expressão mais fiel do quanto os homens, os humanos sim, precisam do amor para sentirem-se mais dignos inclusive da vida. Mas será que esse amor é realmente o que vale a pena? Será que não existe mais nada no mundo que possa nos fazer feliz? Será que os dias tristes são a nossa realidade?
É aí que entra a amizade. Não existe nada melhor que os amigos. Nem mesmo o amor é melhor que uma boa amizade, pois são os amigos que sempre ajudam a suportar inclusive a dor de descobrir que o que achávamos ser amor não passava de um engano. Quando temos pelo menos um amigo no qual possamos confiar plenamente, mesmo nos dias atuais, temos sim a verdadeira felicidade junto a nós. É a felicidade que não nos abandona nem quando estamos sós, porque temos a certeza de que nossa alegria está ao alcance de um telefone ou até mesmo da tela de um computador, se não pode estar presente no momento.
Mas o nosso herói sentia-se incompleto. Precisava muito encontrar alguém que o fizesse feliz. De tanto procurar, vivia se enganando, com pessoas que sabiam de sua carência e só queriam dela tirar proveito. Isso o fazia infeliz. Ao invés de olhar direito, ficava contente com qualquer meia-dúzia de palavras bonitas que soavam como música em seus ouvidos.
Até que um dia chegou alguém que o desafiou. Que lhe dizia as verdades, por mais que estas lhe doessem na alma. Também humana, que sabia viver e ser feliz com as pequenas coisas que a vida lhe proporcionava. Que brindava com um sorriso incrivelmente sincero todo dia que amanhecia, ainda que este dia fosse difícil de ser enfrentado. Isso o deixou intrigado.
Ele quis descobrir melhor esse certo alguém que chegou brincando de abalar as sólidas estruturas que não o deixavam ver o mundo com cores além do entediante cinza. Aí ele parou. Pensou. Passou a olhar para si mesmo. Começou a analisar melhor seu círculo de amizades. As máscaras, ah, elas caíram por terra... E o nosso herói descobriu que aquela, que se tornou exemplo de amizade, era, na verdade a primeira pessoa que, afora sua família, seria o ser mais importante da sua vida!
Então tudo se completou, e ele aprendeu a olhar melhor para si mesmo e com maior atenção para os que o rodeavam. E assim o nosso herói se fez feliz... Para sempre? Ora, para sempre é muito tempo.
Do amanhã, nenhum de nós sabe!

Leonardo Távora